Mostrando postagens com marcador Cecília Meireles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cecília Meireles. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ELEGIA A UMA PEQUENA BORBOLETA



COMO CHEGAVAS do casulo,
-inacabada seda viva! –
tuas antenas – fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
Expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
Transparência anêmona aérea!
Não leves meu rosto contigo:
Leva o pranto que te celebra,
No olho precário em que te acabas,
Meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente 
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava! 

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!

Cecília Meireles
In Retrato Natural


'MIMETISMO'



O sábio no jardim sorria
do artifício da borboleta
convertida em folha amarela
até com manchas e defeitos.

O sábio sorria daquela
mentira. Ó colorido embuste!
Ó fingimento desenhado
por cegos presságios e sustos!

Para salvar seu breve tempo,
- tempo de inseto - dom dos vivos,
tinha a borboleta bordado
seu sigiloso mimetismo.

( atrás das máscaras, que morte
pode alcançar o oculto pólo
sensível, no pulsante abismo
onde a hora de existir se acolhe?)

Sendo e não sendo, perto e longe,
escondia-se, ignota e inquieta,
guardando, em paredes de medo,
a esperança da seiva eterna.

O sábio no jardim sorria
do cauteloso fingimento,
de tênue silêncio expectante
sobre os universais segredos.

Cecília Meireles -
In 'O Estudante Empírico'


'CANÇÃO DE OUTONO'



Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.

Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles
In: Poesia Completa


IDÍLIO



Como eu preciso de campo,
de folhas,brisas,vertentes,
encosto-me a ti, que és árvore,
de onde vão caindo flores
sobre os meus olhos dormentes.

Encosto-me a ti, que és margem
de uma areia de silêncios
que acompanha pelo tempo
verdes rios transparentes:
tua sombra, nos meus braços,
tua frescura, em meus dentes.

Nasce a lua nos meus olhos,
passa pela minha vida...
- e, tudo que era, resvala
para calmos ocidentes.
Caminhos de ar vão levando
pura e nua essa que andava
com as roupas mais diferentes.

Olham pássaros, das nuvens,
entre a luz dos mundos firmes
e a das estrelas cadentes.
E o orvalho da sua música
vai recobrindo o meu rosto
com um tremor que eu conhecia
nos meus olhos já levados,
idos, perdidos, ausentes...

(Leve máscara de pérolas
na minha face não sentes?)

Cecília Meireles
In Vaga Música

10



Em colcha florida
me deitei.
Pássaros pintados
Escutei.

Grinaldas nos ares
contemplei.

Da morte e da vida
me lembrei.
Dias acabados
lamentei.

(Flores singulares
mão bordei.
A canção trazida
não cantei.

Naveguei tormentas pelos quatro lados.
Não as amansei!
Ó grinaldas, flores, pássaros pintados,
como dormirei?)

Cecília Meireles
in Metal Rosicler (1960)



16




Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina.

Tece-a com desenhos
de amigos que falam,
de ruas que voam,
de amor que se inclina,

de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme, deplora
com palavras mudas
e não raciocina...

Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina

dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa 
e a noite combina.

Cecília Meireles
In Metal Rosicler

"SE EU FOSSE APENAS. . ."





Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
-de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa. . .

Cecilia Meireles
In: Retrato Natural


SUPÉRFLUO




A chuva coloca no bico dos pássaros
um guizo d’água.

A tarde levanta da verde folhagem
uma espuma de aroma.

Uma vida, quase a teus pés, dirige-te
um terno pensamento.

Oh, as pequenas coisas supérfluas
extraviadas no mundo.

Quem ouve? quem vê? quem entende?

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos


4




Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo.
Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras.
E as cigarras sobre as resinas continuam cantando.

Tu percorrerias o céu com teus olhos nevoentos,
e calcularias o sol de amanhã,
e a sorte oculta de cada planta.

E amanhã descerias toda coberta de branco,
brilharias à luz como o sal e a cânfora,
mirarias os cravos, contentes com a chuva noturna,
tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes,
e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos.

E olharias o sol subindo ao céu com as asas de fogo.
Tuas mãos e a terra secariam bruscamente.
Em teu rosto, como no chão,
haveria flores vermelhas abertas.

Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas,
sussurrando.
E os canteiros viam-te passar
como a nuvem mais branca do dia.

Cecília Meireles
in Mar Absoluto

EXCERTO POÉTICO



"Aprendi com as primaveras a deixar-me
cortar e a voltar sempre inteira." 

__Cecília Meireles,
do poema "Desenho", do Livro "Mar absoluto".





PONTE



Frágil ponte:
arco-íris, teia
de aranha,gaze
de água, espuma,
nuvem, luar.
Quase nada:
quase
a morte.

Por ela passeia,
passeia,
sem esperança nenhuma,
meu desejo de te amar.

Céu que miro?
- alta neblina.
Longo horizonte
- mas só de mar.

E esta ponte
que se arqueia
como um suspiro
- tênue renda cristalina - 
será possível que transporte
a algum lugar?

Por ela passeia, 
passeia
meu desejo de te amar.

Em franjas de areia,
chegada do fundo
lânguido do mundo,
às vezes, uma sereia
vem cantar.
E em seu canto te nomeia.

Por isso, a ponte se alteia,
e para longe se lança,
nessa frágil teia
- invisível, fina
renda cristalina
que a morte balança,
torna a balançar...

(Por ela passeia
meu desejo de te amar.)


Cecília Meireles
In Vaga Música

PRIMAVERA



A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome,
nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os 
habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda 
circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida
para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra,
nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis
acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer,
no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos
cor-de-rosa,como os palácios de Jeipur. Vozes novas de 
passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua
nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se
pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que
não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno,
quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente,
e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as
árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores,
com vestidos bordados de flores,com os braços carregados de
flores, e vem dançar neste mundo cálido,de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não
se esquece,e a terra maternalmente se enfeita para as
festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia,
talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no
momento que quiserem,independentes deste ritmo, desta 
ordem, deste movimento do céu.E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos,— e os ouvidos que por
acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que,
outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos
atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão
beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam
nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda 
conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo
tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai
tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. 
Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo 
enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam
com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser 
lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente,
ao que vem, na rotação da eternidade. 
Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.



"Cecília Meireles,
in Obra em Prosa - Volume 1",

CANÇÃO MÍNIMA




No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.


Cecília Meireles
Antologia Poética, l.963





DE UM LADO CANTAVA O SOL...




De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!

De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim...

Cecília Meireles
in: Canções -1.956-

CAMPO




Campo da minha saudade:
vai crescendo, vai subindo,
de tanto jazer sem nada.

Desvelo mudo e contínuo
que vai revestindo os montes
e estendendo outros caminhos.

Mergulhada em suas frondes,
a tristeza é uma esperança
bebendo a vazia sombra.

Águas que vão caminhando
dispersam nos mares fundos
mel de beijo e sal de pranto.

Levam tudo, levam tudo
agasalhado em seus braços.

Campo imenso - com o meu vulto...

E ao longe cantam os pássaros.


Cecília Meireles,
In Mar Absoluto e Outros Poemas (1945)






segunda-feira, 29 de setembro de 2014

CHUVA




Sobre as casas fechadas, a chuva.
Sobre o sono dos homens, a chuva.
Sobre os mortos inúmeros, a chuva.

A chuva noturna sobre as arvores.
A chuva noturna sobre os templos
A chuva noturna sobre o mar.

Sobre a solidão deste mundo, a chuva.
A solidão da chuva, na solidão.

Abril, 1954

Cecília Meireles
In: Poesia Completa

ANTIECLESIASTE




Chuva nas nuvens,
flores nas arvores,
lágrimas em nós.

Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lágrimas

Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.

1949

Cecília Meireles
In: Poesia Completa

sábado, 5 de julho de 2014

LEVEZA



Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garaganta,
mais leve.

E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

Cecília Meireles,
in Antologia Poética


quarta-feira, 2 de julho de 2014

POEMA DO NOME PERDIDO




Como é teu nome, ó amiga estrangeira,
como é teu nome, ó rosto branco,
madona de tranças tristes, rio de ouro que um vento frisa?


Onde está o teu nome, dentro de mim, que não o encontro?
Acho tuas mãos tão finas, teus olhos verdes,
teu silencio delicado...
Mas teu nome onde está?


Deves começar por A, tão clara tão nítida,
tão perdida...
água...Oh!... Ar... Dize, como te chamas?


Quero escrever-te, e conheço-te,
e não me lembro do teu nome...
Alba... Aurora... Asa... Aragem...


Como te chamas? E por que não me lembro,
lembrando-te tanto, querendo-te tanto?
Decerto, o que estimo em ti não tem nome nenhum.
Nem mesmo o teu.


Mas o teu qual é, ó amiga que assim te escondes?

Cigarra na folhagem, sussurra para que te encontre!

Amália! Amália!


Ó exata, ó fiel, ó geométrica,
é dona das cores matutinas, dos barcos brancos,
das janelas fechadas ao crepusculo!...

Quem separa dentro de mim teu rosto do teu nome?

E procurei-o letra por letra,
como em noite escura se adivinha uma flor,
tocando pétala por pétala.

E eras inúmera! Amália, Amália...

Dália . 



Cecília Meireles
Poesia Completa
In: Dispersos (1918 – 1964)

domingo, 15 de junho de 2014

TOMAR A SUBSTANCIA DO DIA




Tomar a substancia do dia,
a sua mágica substancia,
e levantá-la como um vaso,
desenhando no seu cristal
desejo, deslumbramento, esperança
na rosa que não é apenas flor,
mas diagrama da perfeição.

E de novo recomeçar,
porque é sempre um novo dia,
e o cristal da sua substancia
foge entre os nossos dedos,
e amarga em nossa boca,
e é puro quartzo de lagrima
que se prepara e forma e quebra
para sempre, na eterna solidão.   


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)