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terça-feira, 28 de abril de 2015

PAISAGEM DE APÓS-CHUVA


Arte de Graham Gercken


A relva, os cavalos, as reses, as folhas,
tudo envernizadinho como no dia inolvidável
da inauguração do paraíso...

Mario Quintana,
in Sapato Florido





sábado, 25 de abril de 2015

JARDIM INTERIOR


Arte de Thomas Kinkade


Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mário Quintana,
in A Cor do Invisível, 1989


segunda-feira, 23 de março de 2015

VERSO AVULSO




Senhor! Que buscas Tu pescar com a rede
das estrelas?

Mario Quintana,
in 80 anos de Poesia



CANÇÃO




Cheguei a concha da orelha
à concha do caracol.

Escutei
vozes amadas
que eu julgava
eternamente perdidas.

Uma havia
que dentre as outras mais graves
tão clara e alta se erguia...

Que eu custei mas descobri
que era a minha própria voz:
sessenta anos havia
ou mais
que ali estava encerrada.

Meu Deus, as coisas que ele dizia!
as coisas que perguntava!

Eu deixei-as sem resposta.

Mario Quintana,
in 80 anos de Poesia






ESTE E O OUTRO LADO




Tenho uma grande curiosidade do Outro Lado.
(Que haverá do Outro Lado, meu Deus?)
Mas também não tenho muita pressa...
Porque neste nosso mundo há belas panteras, nuvens, mulheres belas,
Árvores de um verde assustadoramente ecológico!
E lá - onde tudo recomeça -
Talvez não chova nunca,
Para a gente poder ficar em casa
Com saudades daqui...

Mario Quintana,
in Velório sem defunto -1990


CANÇÃO AZUL



Triste, Poeta, triste a florinha azul que sem querer
Pisaste no teu caminho. . .
Miosótis, - disseste, inclinado um instante sobre ela.
E ela acabou de morrer, aos poucos, dentre a relva úmida.
Sem nunca ter sabido que se chamava miosótis.
Nem que iria impregnar, com o seu triste encanto,
O teu poema daquele dia. . .


Mário Quintana
In: Canções


A CANÇÃO DO MAR




Esse embalo das ondas
Das ondas do mar
Não é um embalo
Para te ninar...

O mar é embalado
Pelos afogados!

O canto do vento
Do vento no mar
Não é um canto
Para te ninar...

São eles que tentam
Que tentam falar!

Tiveram um nome
Tiveram um corpo
Agora são vozes
Do fundo do mar...

Um dia viremos 
Vestidos de algas

Os olhos mais verdes
Que as ondas amargas

Um dia viremos
Com barcos e remos

Um dia...

Dorme, filhinha...
São vozes, são vento, são nada...


Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo




INFÂNCIA



é quando as portas são fechadas
e abertas ao mesmo tempo,
é quando estamos metade na luz
e a outra metade na escuridão,
é quando o mundo real chama
e preferimos outro...

Mario Quintana
in Esconderijos do Tempo


NATUREZA VIVA





Há trovões arrastando pesados móveis, enormes 
cômodos pelo céu. Há outros que trabalhar não é
com eles e ficam resmungando, num desvão .Por 
fim atracam-se. As lâmpadas, lá alto, queimam-se 
em sucessivos relâmpados .Até que tudo vasa e
se extravasa sobre o desespero dos guarda-chuvas
em fuga e a verde alegria das árvores.

Mario Quintana
In Porta Giratória



OS NOMES



Como não lhes interessa o que parece inútil, 
os campônios não dão importância às flores do campo.
É o que parece. Mas a gente fica a perguntar-se
como é que essas flores silvestres conseguiram
então ter nomes populares: margaridas,
amores-perfeitos, coisas assim!


Mario Quintana, 
in Porta Giratória

domingo, 30 de novembro de 2014

O MUNDO DO SONHO




O mundo do sonho é silencioso
como o mundo submarino. Por isso
é que faz bem sonhar.

Mario Quintana
in Caderno H





domingo, 9 de novembro de 2014

A CHUVA


 

O bom da chuva é que parece que não tem fim...
Nenhuma das outras coisas me dá essa resignada,
tranquilizadora sensação de fatalidade.

Mario Quintana,
in Caderno H

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

PEQUENO POEMA DE APÓS CHUVA




Frescor agradecido de capim molhado
Como alguém que chorou
E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada
alegria
Por ter a vida
continuado...

Mario Quintana
In Baú de Espantos


sábado, 4 de outubro de 2014

I




Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando.

Mario Quintana, 
in A rua dos catavaentos


IMAGEM




O gato é preguiçoso como uma 
segunda-feira.

Maio Quintana,
in Hora H






CANÇÃO DE OUTONO




O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!


Mario Quintana 
in Canções

VERANICO



Está marcando meio-dia nos olhos dos gatos.
As sombras esconderam-se debaixo da barriga dos cavalos.
A cidadezinha modorreia...A tarde
Avança, lentamente, como o casco coberto de poeira
Como uma tartaruga
O poema empaca, o poeta adormece
De chatice
A vida continua indiferente.

Mario Quintana,
in: Preparativos de Viagem




FAMÍLIA DESNCONTRADA



O verão é um senhor gordo sentado na varanda 
reclamando cerveja. O inverno é o vovozinho
tiritante. O outono, um tio solteirão.
A primavera, em compensação, é uma menina 
pulando corda.

- Mario Quintana, 
in: Caderno H, 1973.

HAI-KAI DE OUTONO




Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

Mário Quintana,
in Preparativos de Viagem


PASSARINHO NA TARDE DE SÁBADO




Como se fosse o primeiro passarinho do mundo
Na primeira manhã do mundo,
Voa e revoa 
Por cima da praça modesta
Onde velhinhos sentados
Fazem um pouco de sesta.
Voa e revoa, inquieto,
Por cima da gente que passa
Apressada,
Por cima das árvores
Por cima da estátua eqüestre 
Que está no meio da praça.
Esvoaça,
Esvoaça
Alegre!
Passarinho eu te acho uma graça...
Só uma coisa te peço, passarinho de 
minh'alma:
Não me faças nenhum descuido em cima
do cavalo da estátua!

Mario Quintana
In Preparativos de Viagem