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sábado, 4 de outubro de 2014

O AMIGO



Amigo é a criatura que escuta todas as nossas 
coisas sem aquela cara que parece estar 
dizendo: - E eu com isso?

Mario Quintana
Caderno H


PEDRA ROLADA




Esta pedra que apanhaste acaso à beira do caminho
- tão lisa de tanto rolar -
é macia como um animal que se finge de morto.

Apalpa-a... E sentirás, miraculosamente,
a suave serenidade com que os mortos recordam.

Mortos?! Basta-lhes ter vivido
um pouco
para jamais poderem estar mortos

- e esta pedra pertence ao universo deles,

Deposita-a
no chão, 
cuidadosamente...

Esta pedra está viva!


Mario Quintana, 
in Apontamentos de Historia sobrenatural


JARDIM INTERIOR



Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mario Quintana , 
in A Cor do Invisível, 1989



CANÇÃO DE INVERNO




O vento assobia de frio
Nas ruas da minha cidade
Enquanto a rosa-dos-ventos
Eternamente despetala-se...

Invoco um tom quente e vivo
_ o lacre num envelope? -
e a névoa, então, de um outro século
no seu frio manto envolve-me

Sinto-me naquela antiga Londres
Onde eu queria ter andado
Nos tempos de Sherlock - o Lógico
E de Oscar - pobre Mágico...

Me lembro desse outro Mário
Entre as ruínas de Cartago,
Mas só me indago: - Aonde irão
Morar os nossos fantasmas?!

E o vento, que anda perdido
Nas ruas novas da Cidade,
Ainda procura, em vão,
Ler os antigos cartazes.


Mário Quintana,
in Apontamento de História Sobrenatural



VII



 Da voluptuosidade

Tudo, mesmo a velhice, mesmo a doença,
Tudo comporta o seu prazer...
E até o pobre moribundo pensa
Na maneira mais suave de morrer... 

Mario Quintana
In: Espelho Mágico



FRUSTRAÇÃO




Outono: essas folhas que tombam na água parada
dos tanques e não podem sair viajando pelas 
correntezas do mundo...

Mario Quintana,
in Caderno H



“PAISAGÍSTICA



O conforto, a higiene, sim...
No entanto, um ranchinho de barro e sapé vai muito
melhor com a paisagem.
Um ranchinho de barro e sapé parece brotado da terra,
faz parte da natureza, não contradiz as árvores e o céu.
E é, também, tão humano...”

Mario Quintana,
in Caderno H

CANÇÃO DA PRIMAVERA



Um azul do céu mais alto,
Do vento a canção mais pura
Me acordou, num sobressalto,
Como a outra criatura...

Só conheci meus sapatos
Me esperando, amigos fiéis,
Tão afastado me achava
Dos meus antigos papéis!

Dormi, cheio de cuidados
Como um barco soçobrando,
Por entre uns sonhos pesados
Que nem morcegos voejando...

Quem foi que ao rezar por mim
mudou o rumo da vela
Para que eu desperte, assim,
Como dentro de uma tela?

Um azul do céu mais alto,
Do vento a canção mais pura
E agora... este sobressalto...
Esta nova criatura!

Mario Quintana 
de 'Nariz de Vidro'

A GENTE AINDA NÃO SABIA



A gente ainda não sabia que a Terra era redonda.
E pensava-se que nalgum lugar, muito longe,
Deveria haver num velho poste uma tabuleta qualquer
— uma tabuleta meio torta
E onde se lia, em letras rústicas: FIM DO MUNDO.
Ah! Depois nos ensinaram que o mundo não tem fim
E não havia remédio senão irmos andando às tontas
Como formigas na casca de uma laranja.
Como era possível, como era possível, meu Deus,
Viver naquela confusão?
Foi por isso que estabelecemos uma porção de fins de mundo...

Mario Quintana
de 'Nariz de Vidro'



EU FIZ UM POEMA




Eu fiz um poema belo
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...
Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
Alheias um à outra como as palavras de um dicionário
Eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de 
uma cidade morta.
O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a terra...
Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?

Mario Quintana
In Esconderijos do Tempo


SINÔNIMOS



Confesso que até hoje só conheci dois sinônimos
Perfeitos: “nunca” e “sempre”.

Mario Quintana
In: Na volta da Esquina




LOUCA



Súbito
Em meio àquele escuro quarteirão fabril
Das minhas mãos se escapou um pássaro maravilhoso
E eu te amei como quem solta um grito,
Ó Lua enorme
Incompreensível...
Por que sempre me espantas e me assustas, Louca,
Como se eu te visse sempre pela primeira vez?!

Mario Quintana
In Baú de Espantos

Os SILÊNCIOS




Não é possível amizade quando dois silêncios não se combinam.

Mario Quintana,
in Porta Giratória - 1988





O POETA




Venho de fundo das eras,
Quando o mundo mal nascia...
Sou tão antigo e tão novo
Como a luz de cada dia!

Mario Quintana,
In: Esconderijos do Tempo




CRIANÇA & CACHORRO



Triste de quem não teve um cachorro na infância!
Para uma criança, criatura tão necessitada de 
todos, tão frágil e sozinha, um cachorro é um 
teste de amor desinteressado da parte dela…
é ter uma outra criatura que dependa, 
enfim, de seus cuidados”. 

Mario Quintana ,
in Caderno H






EU OUÇO MÚSICA




Eu ouço música
Como quem apanha chuva
Resignado e triste
De saber que existe um mundo
Do outro mundo...

Eu ouço música
Como quem está morto
E sente já
Um profundo desconforto
De me verem ainda
Neste mundo de cá...

Perdoai,
Maestros,
Meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
Que não pode voar


Mário Quintana
In Apontamentos de história sobrenatural


UM PASSEIO NA MATA



Ouço, num primitivo espanto,os gritos mais insólitos.
Não sei o nome de nenhum desses pássaros, de nenhuma 
dessas árvores. Olho, agora, esta flor: apenas sei 
que é amarela. Meu pensamento, ou seja lá o que for,
é simplesmente composto de adjetivos, como nos
primeiros dias da Criação.

Mario Quintana,
in Caderno H

A NOSSA CANÇÃO DE RODA


A nossa canção de roda 
tinha nada e tinha tudo 
como a voz dos passarinhos- 
mas que será que dizia? 
A nossa canção de roda 
era boba como a lua. 
Mas a roda dispersou-se 
cada qual perdeu seu par... 
Agora,nossos fantasmas meninos 
talvez a cantem na lua... 
talvez que junto a algum leito 
a morte a esteja a cantar 
como quem nana um filhinho... 
A nossa canção de roda 
tinha nada e tinha tudo:era 
uma girândola de vozes 
chispando 
mais lindas do que as estrelas 
era uma fogueira acesa 
para enganar o medo, o grande medo 
que a Noite sentia da sua própria escuridão. 
Mario Quintana 
in "Baú de Espantos"


XV. DO MAU ESTILO



Todo o bem, todo o mal que eles te dizem, nada
Seria, se soubessem expressá-lo...
O ataque de uma borboleta agrada
Mais que todos os beijos de um cavalo.


Mario Quintana;
in Espelho Mágico




FUTURÂMICA




Mesmo que um dia se conseguir fazer rosas de todas as cores,
sempre há de ficar no mundo a imutável beleza das panteras, 
a incorruptível limpidez das lagrimas...

Mario Quintana ,
in Porta Giratória