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domingo, 23 de novembro de 2014

COMO UMA FLOR VERMELHA




À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Poesia

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

EM TODOS OS JARDINS




Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

sexta-feira, 30 de maio de 2014

NOITE



Sozinha estou entre paredes brancas
Pela janela azul entrou a noite
Com seu rosto altíssimo de estrelas


Sophia de Mello Andresen
in Mar Novo

LUA


re a terra e os astros, flor intensa.
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.

Sophia de Mello Andresen,
in Dia do mar - IV -1947

AS FONTES



Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei ate as fontes.

Irei até as fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um vôo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.


Sophia de Mello Breyner Andresen
in 'Poemas escolhidos' 2004

sábado, 5 de abril de 2014

LIBERDADE



Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

sábado, 5 de outubro de 2013

PRAIA


 
Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.
 
Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.
 
Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.
 
As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.
 
E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.

 
Sophia de Mello Breyner Andresen
Coral
 


BIOGRAFIA


 
Tive amigos que morriam, outros que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar Novo
 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

MAR SONORO


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Obra poética I


MEIO-DIA



Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo,
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso, solitário e antigo,
Parece bater palmas.
 
 
Sophia de Mello Breyner Andresen
in Obra poética I
 

PRAIA



As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços.

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Obra poética I

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

SENHOR LIBERTAI-NOS



«Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres»


Sophia de Mello Breyner Andresen
in: Geografia 1967

PAISAGEM




Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner
In ‘Poesia’ (1944)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

COMO O RUMOR



Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto

Sophia Mello Breyner Andresen
In Poemas Escolhidos





OS DIAS DE VERÃO



Os dias de verão vastos como um reino 
Cintilantes de areia e maré lisa 
Os quartos apuram seu fresco de penumbra 
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo 

Tempo é de repouso e festa 
O instante é completo como um fruto 
Irmão do universo é nosso corpo 

O destino torna-se próximo e legível 
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros 
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem 

Como se em tudo aflorasse eternidade 

Justa é a forma do nosso corpo 


 Sophia de Mello Breyner Andresen
In Dual, 1972 

POEMA



A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada.


Sophia de Mello Breyner Andresen
In Poemas Escolhidos





OS AMIGOS



Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta e impetuosa
Juventude antiga -
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão


Sophia de Mello Breyner Andresen
In Musa, 1994


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

PAISAGEM



Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.


Sophia de Mello Breyner Andresen 
In ‘Poesia’ (1944)














quarta-feira, 14 de agosto de 2013

COMO UM FRUTO...



Como um fruto que mostra 
Aberto pelo meio 
A frescura do centro 

Assim é a manhã 
Dentro da qual eu entro


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "Livro Sexto"

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

AS FLORES



Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in No Tempo Dividido