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terça-feira, 12 de maio de 2015

2



 
Na noite transfigurada só ficaram os cedros e os
ciprestes.
A lua surgiu, mas como, na lembrança, um rosto
antigo explende palidamente e depois
se apagou.
O vento veio, mas como um pássaro branco de
grandes asas fatigadas: esvoaçou, lento
entre as frondes, pousou no chão e
adormeceu.
Os outros seres perderam-se no caminho dos
milênios.
Ficaram apenas os cedros e os ciprestes e, na altura,
as estrelas.
E para além dos ciprestes e cedros há só deserto e
esquecimento.
 
 
 
Tasso da Silveira
in Solilóquio.

sexta-feira, 13 de março de 2015

15


Foto by Jussara Maria Saade Teixeira

Toda uma eternidade se escoou
antes que estas rosas abrissem.
E toda uma eternidade se escoará
depois que elas fenecerem de todo.
Mas no seu fugitivo instante
de milagre e esplendor

elas são um lampejo
de beleza infinita



Tasso da Silveira,
in Canções à Curitiba



terça-feira, 10 de março de 2015

APOTEOSE




No horizonte profundo
mãos invisíveis suspenderam
a cortina sem fim das trevas mortas...

e cem lâmpadas claras se acenderam!

...e a luz radiosa entrou pelas cem
portas do Palácio do Mundo...


Tasso da Silveira,
in Canções à Curitiba
& outros poemas

quarta-feira, 30 de julho de 2014

CANÇÃO



Fonte, não beberei de tua água
(À sombra pura
tenho o meu cântaro fresco)
Não beberei de tua água,
mas ouvirei teu canto.
Ouvi-lo-ei com os ouvidos
do teu mistério eterno.
Teu canto é antigo e amanhecente.
É caos e gênese.
E é como o canto
do rouxinol que cantou cem anos,
e o monge ficou escutando em êxtase,
ficou escutando, escutando,
ficou escutando ...


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes

terça-feira, 29 de julho de 2014

XXXII



Somos aves do mar, batendo, ansiadas,
as asas, num viveiro de pomar.
Em torno, ao vento, agitam-se as ramadas:
ao vento vivo que nasceu do mar. 

Ah, que nunca dobramos resignadas,
as asas, nem deixemos de sonhar.
O vento vem em trêmulas lufadas;
e no canto do vento vem o mar ...

Se entre as formas efêmeras nascemos
foi para que a alma eterna que trouxemos
em si mesma realiza, a soluçar,

a absoluta beleza, à nostalgia
das origens divinas a que um dia
retornaremos, como para o mar ...


Tasso da Silveira
in Poemas

sábado, 26 de julho de 2014

ÁRVORE



Eu te fui como uma árvore possante,
a cuja sombra vieste repousar.
Ardia o sol ... Pelo caminho adiante
onde teu débil corpo resguardar?

Dei-te, em sombra e perfume, nesse instante,
toda a minha alma ... E a minha fronde, no ar
era um aberto pálio verdejante
para te proteger e te salvar ...

Mas que bom de velar sobre a fraqueza
de alguém que, ingênua e simples, de surpresa,
a nós, confiante, e pura, se entregou ...

Ah! Nem senti a ventania doida
que passou ululando e quase toda
minha verde folhagem despencou ...


Tasso da Silveira
in Poemas


sexta-feira, 25 de julho de 2014

LEGENDA DA VIDA E DO SONHO




No meu fogão pobre não ardia uma brasa,
do meu teto humilde não pendia uma lâmpada,
nenhuma estampa sorria nas paredes nuas do meu 
tugúrio.

Então, eu saí para a noite,
que estava toda iluminada !


Tasso da Silveira
Canções a Curitiba
& outros poemas

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A FUGA DO TEMPO




Na origem perdida de todas as coisas
foi que, para os olhos da Terra-menina
a ronda infinita começou:

a ronda infinita dos dias e noites! ...

Os dias cobertos de sedas e jóias,
as noites trazendo guirlandas de estrelas
entrelaçadas nos seios nus.
Os dias cantando cantigas frescas
cada um num ritmo diferente;

as noites cantando profundas baladas
cada uma em toada diferente;
os dias e as noites de mãos dadas
correndo na ponta dos pés nus ...

Na origem perdida de todas as coisas
foi que a ciranda começou ...

e a Terra, encantada, quedou-se olhando, 
ficou perdida no sonho suave,
e nem sentiu, não reparou
que, enquanto a ronda ia passando,
o pássaro de ouro
que ela aprisionara
voou para longe, longe, 
e não voltou ...



Tasso da Silveira
in Poemas


quarta-feira, 23 de julho de 2014

MAR E VENTO



Mar e vento. É o que somos. Mar, com
profundidades abissais, com tormentas, e com a 
infinita inquietação prisioneira. Vento, com ânsia
e o destino da liberdade igualmente infinita.
Mar e vento não seriam completos, um sem o
outro. A realidade que na vasta natureza tanto
nos comove não é apenas o mar, ou o vento.
É o vento fundindo-se no mar. As ondas são
vento liquefeito, e o vôo do vento é uma medida
das solidões do mar.
Na vasta natureza, e na vastidão do que somos,
o que nasce desse encontro é a cantiga. O vento
e o mar fundindo-se numa queixa única, e infinita.
A cantiga é sempre queixa, e sempre queixa infinita.
Mesmo se fala de deslumbramento.


Tasso da Silveira
in Poema de Antes


terça-feira, 22 de julho de 2014

7




À Vida abriu o viveiro,
sem fazer conta de mim,
e dele, em fervido arranco,
fugiu o pássaro branco
para longe do jardim.
Que posso fazer agora?
Apenas, ficar cismando,
apenas ficar chorando,
bem no silêncio de mim,

a olhar esta branca ausência
no viveiro do jardim.


Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes


9




Ah, ser o tigre elástico
que salta, brusco da brenha
para a clareira da floresta,
e olha em torno, absoluto,
o mundo, vasto e seu.

Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes

CARICATURA



A terra-mendiga escondeu-se num canto de 
sombra
para espiar,
através da janela da noite,
as estrelas dançando a sua prodigiosa dança lenta
no salão alto do Infinito.

Entre espelhos profundos, 
sobre veludos raros,
as estrelas dançam em êxtase.

E esqueceram-se de tudo
e embebedaram-se
do ritmo sereníssimo ...

E a Terra, despercebida e humilde,
tomou-se também
da encantada volúpia.

E arrepanhando o vestido roto de gaze que lhe deram,
e em que ainda brilham vidrilhos,
pôs-se a imitar, na sombra,
os movimentos harmoniosos
do bailado divino.


Tasso da Silveira
in Poemas

sábado, 19 de julho de 2014

NARCISO E O CÉU


 
Este céu de ouro nítido,
mirando-se na água sereníssima,
é Narciso.
Narciso, que se despercebia das coisas todas em torno,
das montanhas imóveis na líquida faiscação da luz macia,
das árvores em balouços esquecidos e lentos,
nas ninfas ágeis e frescas como frêmitos de alvorada
na tarde mansa,
das coisas todas que, no entanto, se saturavam da graça
pura do seu corpo,
- porque a alma inteira se lhe fundia no êxtase da sua
própria beleza refletida.

Narciso, que era,
na harmoniosa alma helênica,
uma adivinhação comovida
do Ser infinito e absoluto
que eternamente se contempla a si mesmo.


Tasso da Silveira
in Poemas

A MONTANHA




A seda do céu começou a manchar-se de sombra,
e o cristal do ar sereno
embaciou-se de sombra
e com o silêncio profundo
a noite, imensa, desceu.

E junto a mim, sob o céu morto,
ficou apenas este vulto de montanha
enchendo o mundo ...


Tasso da Silveira
in Poemas

sexta-feira, 18 de julho de 2014

OS ELEFANTES



Os brancos elefantes
vão passando, passando, vão passando.

(Não foi ao funda da planície milenária
do velhíssimo Oriente:
foi não fundo do sonho).

Em passadas tranquilas e passantes,
na estrada morta, a areia humílima pisando.

(não foi no mundo efêmero:
foi num conto de Kipling)

os brancos elefantes
imortalmente vão passando ...


Tasso da Silveira
in Poemas de antes

BALADA DE HEMINGWAY




O mar era pleno e puro.
ao fundo, a grande presença.
Em torno ao barco oscilante,
a infinita solitude
das águas, do céu, do vento.
O mar era pleno e puro,
em torno a pura beleza
no barco o desejo e o sonho
do lidador extenuado
sentindo a presença enorme
ao fim da linha retesa.
O mar era pleno e puro.
Hemingway, que a dor me deixe
cantar a balada triste
teu velho, teu mar, teu peixe:
sim, que me deixe cantar.
O mar era puro e pleno:
era todo o imenso mar...


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes


sexta-feira, 11 de abril de 2014

OUTONO




O outono é pomo... É puro pomo o outono.
Pomo de sonho e de recolhimento,
pendendo, longe do amargor violento,
num perdido pomar de sombra e sono.

Há o vento, é certo, o lamentoso vento,
uivando, uivando como cão sem dono.
E a tristeza passando a passo lento
na alameda... E as lembranças. E o abandono.

Mas há também, no outono, essa doçura,
essa total renúncia de oferenda,
esse eterno alheiamento à dor e ao mal,

que faz do pomo uma presença pura
da bondade de Deus na ânsia tremenda,
no degredo da angústia universal.


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –








CANÇÃO



Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.


Tasso da Silveira
in Regresso à Origem (1960).

CANÇÃO



Esse mar tanto sulcado
por meus avós navegantes,
fugindo das praias de antes
ficou dentro em mim guardado.
Pois quanto mais alto e fundo
e perdido é o sonho, vejo
que os barcos todos do mundo
navegam no meu desejo.

Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –


CANÇÃO



Fonte, não beberei de tua água
(À sombra pura
tenho o meu cântaro fresco)
Não beberei de tua água,
mas ouvirei teu canto.
Ouvi-lo-ei com os ouvidos
do teu mistério eterno.
Teu canto é antigo e amanhecente.
É caos e gênese.
E é como o canto
do rouxinol que cantou cem anos,
e o monge ficou escutando em êxtase,
ficou escutando, escutando,
ficou escutando ...


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes