terça-feira, 1 de maio de 2012

ESCADA DO SONHO...




Sobe ao céu meu pensamento,
Como uma espiral de incenso...
E eis numa névoa de sol,
Minha escada de Jacó!

É por ela, quando cismo,
Que desces ao meu abismo...

E ascendo aonde vives tu
Entre as estrelas, no Azul...

A escada de sonho, à tarde,
É um íris para a saudade.

É a luz eterna do Amor
Que irradia entre nós dois...

E eleva-se o pensamento,
Além da morte e do tempo.

Da Costa e Silva


FOLHAS BREVES



Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade

TU ERAS TAMBÉM UMA PEQUENA FOLHA...



Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

NO CICLO ETERNO



No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.

Ricardo Reis

IDENTIDADE


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem inseto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço

Mia Couto
In Raiz de Orvalho

NENÚFARES



Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga,
in 'Cântico do Homem'

domingo, 29 de abril de 2012

MAR DE SETEMBRO


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves, só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 27 de abril de 2012

AS AVES



Afluem às margens, jogam
como se a água lhes pertencesse,
pousam no meio dos arbustos
como se tivessem todo o tempo!

No entanto, sabem que as nuvens
vão encher o céu; e que o norte
irá enviar o vento frio que as
há-de arrastar para sul, deixando
atrás de si o silêncio
nos campos. Mas pouco lhes importa
isso, quando se juntam, e
cantam a efemeridade do
instante.


Nuno Júdice

HÁ UMA SOLIDÃO NO CÉU



Há uma solidão no céu,
uma solidão no mar
e uma solidão na morte.
Mas fazem todas companhia
comparadas a este local profundo,
esta polar intimidade,
uma Alma que reconhece a Si mesma:
finita infinidade.


Emily Dickinson
Tradução de Paulo Mendes Campos

VELHA INTERROGAÇÃO




Passa a vida? Continua…
Porque o tempo é que flutua,
como um rio de veludo,
sobre todos, sobre tudo...

À sua imagem sonhamos:
de onde vimos? aonde vamos?

E o destino indiferente
vai impelindo a torrente...

Passa a vida? Continua...
Com o tempo quem passa é a gente.
Mas, vida, se nós passamos,

de onde vimos? aonde vamos?


Da Costa e Silva
in: Poesia Completa

quinta-feira, 26 de abril de 2012

PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA



Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro,
in "Poemas Inconjuntos"

PAPOULAS DE JULHO



Ó papoulinhas pequenas flamas do inferno,
Então não fazem mal?
Vocês vibram. É impossível tocá-las.
Eu ponho as mãos entre as flamas. Nada me queima.

E me fatiga ficar a olhá-las
Assim vibrantes, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.
Uma boca sangrando.
Pequenas franjas sangrentas!

Há vapores que não posso tocar.
Onde estão os narcóticos, as repugnantes cápsulas?
Se eu pudesse sangrar, ou dormir !
Se minha boca pudesse unir-se a tal ferida !

Ou que seus licores filtrem-se em mim, nessa cápsula de vidro,
Entorpecendo e apaziguando.
Mas sem cor. Sem cor alguma.

Sylvia Plat

PEQUENA FLOR



Como pequena flor que recebeu uma chuva enorme
e se esforça por sustentar o oscilante cristal das gotas
na seda frágil, e preservar o perfume que aí dorme,

e vê passarem as leves borboletas livremente,
e ouve cantarem os pássaros acordados sem angústia,
e o sol claro do dia as claras estátuas beijando sente,

e espera que se desprenda o excessivo, húmido orvalho
pousado, trémulo, e sabe que talvez o vento
a libertasse, porém a desprenderia do galho,

e nesse temor a esperança aguarda o mistério transida
- assim repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
há um coração nas lânguidas tardes que envolvem a vida.


Cecília Meireles
Viagem Vaga Música

QUANDO TORNAR A VIR A PRIMAVERA


Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Alberto Caeiro

ENTRADA DA PRIMAVERA


O vento quente zune toda a noite,
pesadamente rufla a sua asa molhada.
Aves pernaltas titubeiam no ar.
Nada mais dorme:
toda a terra está acordada,
a primavera chama.

Fica quieto coração, fica quieto!
Mesmo que densa e íntima no sangue
agite-se a paixão
e caminhos antigos te seduzam:
de volta à juventude
teus caminhos jamais te levarão.

Hermann Hesse
In Andares
Tradução de Geir Campos

ALFABETO



É muito útil estudar
o alfabeto das flores miúdas
esquecidas na beira dos caminhos.
Pequenas florezinhas amarelas
como mensagens perdidas.
Elas dizem sim à vida, ao Sol,
à chuva, sim ao amor que nasce
todos os dias, invisível,
e com sua luz ilumina a Terra.

Roseana Murray

ARCO-ÍRIS



Primavera.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.


Guilherme de Almeida

ROSA BRANCA AO CREPÚSCULO





Inclinas triste o rosto
nas folhas, para a morte,
respiras luz fantástica
e emites sonhos pálidos.

Íntima como um canto,
à última luz flutua
no quarto, a tarde toda,
a doce fragrância tua.

No inefável se engaja
tua alma temerosa,
e vai rindo e morrendo
em meu peito, irmã rosa.

Hermann Hesse


INTROSPECÇÃO




Nuvens lentas passavam
Quando eu olhei o céu.
Eu senti na minha alma a dor do céu
Que nunca poderá ser sempre calmo.

Quando eu olhei a árvore perdida
Não vi ninhos nem pássaros.
Eu senti na minha alma a dor da árvore
Esgalhada e sozinha
Sem pássaros cantando nos seus ninhos.

Quando eu olhei minha alma
Vi a treva.
Eu senti no céu e na árvore perdida
A dor da treva que vive na minha alma.

Vinícius de Moraes

DEIXO-ME GUIAR


Deixo-me guiar pela cor
indefinível das marés.
Enrolo, em cada frase,
toda a areia da praia,
para ancorar as mãos.
Panos de luto nas velas
de um navio assinalam
a solidão dos pássaros
quando a tempestade
lhes aprisiona as asas.

Graça Pires

A LINGUAGEM DAS FLORES


Sobe até o cimo da manhã.
É lá que deves esperar-me,
grande intervalo de silêncio
musicado e fresco,
até que eu me liberte
do terror das palavras sedentárias
e aprenda,
irmão mais novo dos insetos,
a linguagem perfumada das flores.

ALBANO MARTINS



segunda-feira, 23 de abril de 2012

GIRASSOL


Quero expressar a flor
e o girassol me escolhe:
helianto bizâncio ouro luz

ouro ouro

Variando de horizonte
porém sempre
andazmente fiel
fitando a luz intensamente

o girassol me escolhe:
a doração dourada
fixação tranquila
calor lúcido.

Flor para sempre e muito mais
que flor.


Orides Fontela
in Trevo


ORIGEM



Nem flor nem folha mas
raiz
absoluta. Amarga.

Nem ramos nem botões.
Raiz
íntegra.Sórdida.

Nem tronco ou
caule. Nem sequer planta
__só a raiz
é o fruto.

Orides Fontela


COMPOSIÇÃO




Cavalo branco em campo verde
parado
sereno
branco corcel ao longe
realidade
e miragem

...numa viagem branca, através
de todos os verdes
a forma se tornava
em ritmo, delirio
de forças desatadas
impulso leve e forte
que saltava horizontes
que rasgava as tormentas
e as dores...

Mas agora, parado,
o ser cristalizou-se
na imagem de si mesmo
realidade lúcida
e plácida miragem.

Cavalo branco em campo verde
parado
sereno
branco corcel ao longe
realidade
e miragem

Orides Fontela


DEUS DISSE


Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.


Manoel de Barros

VENTO


um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval

Paulo Leminski
in Caprichos e Relaxos

AS BENÇÃOS



Não tenho a anatomia de uma garça pra receber
em mim os perfumes do azul.
Mas eu recebo.
É uma bênção.
Às vezes se tenho uma tristeza, as andorinhas me
namoram mais de perto.
Fico enamorado.
É uma bênção.
Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro
para que se tornem peregrinos do chão.
Eles se tornam.
É uma bênção.
Até alguém já chegou de me ver passar
a mão nos cabelos de Deus!
Eu só queria agradecer.

Manoel de Barros



domingo, 22 de abril de 2012

A ANÉMONA DOS DIAS


Aquele que profanou o mar
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória

Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como de um Messias

Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anêmona dos dias.


Sophia de Mello Breyner Andresen
in Mar Novo


O BEIJA-FLOR


Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim - a pátria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro…
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!

Um dia foi-se e não voltou… Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho…

Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

Auta de Souza

sábado, 21 de abril de 2012

EPIGRAMA Nº11


A ventania misteriosa
passou na árvore cor-de-rosa,
e sacudiu-a como um véu,
um largo véu, na sua mão.

Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.

Cecília Meireles,
in Viagem

CANTIGA


Bem-te-vi que estás cantando
nos ramos da madrugada,
por muito que tenhas visto,
juro que não viste nada.

Não viste as ondas que vinham
tão desmanchadas na areia,
quase vida, quase morte,
quase corpo de sereia...

E as nuvens que vão andando
com marcha e atitude de homem,
com a mesma atitude e marcha
tanto chegam como somem.

Não viste as letras, que apostam
formar idéias com o vento...
E as mãos da noite quebrando
os talos do pensamento.

Passarinho tolo, tolo,
de olhinhos arregalados...
Bem-te-vi, que nunca viste
como os meus olhos fechados...


Cecília Meireles,
in Viagem

MOMENTO



O vôo dos pássaros prolonga
a beleza das tardes.
E há, em nosso olhar,
um vasto dealbar.
Tudo, em grandeza, torna-se possível.
O visível nasce do invisível.
As nuvens acenam, de repente.
E aquilo que emergiu
é o emergente.


Artur Eduardo Benevides

SÃO ESTAS AS CORES


Se a alguém tens
de agradecer, agradece
primeiro à vida.Por isto,
quanto mais não seja: por teres
nascido de pé e de pé
resistires aos temporais
como as árvores
de raízes fundas.Como a elas,
só te arrancarão à força.Podem,
então, encher-te a boca de terra e os olhos
de sal. São estas
as cores da vergonha.

Albano Martins

ALBA



Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste - o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.


Geir Campos

sexta-feira, 20 de abril de 2012

MATINAL


Na bruma do cenário matutino,
O coração virente da floresta
Lembra um antigo templo bizantino,
Uma sonora catedral em festa

Agora, o bando de sabiás se apresta
Para cantar, solenemente, um hino.
E, do turíbulo das flores, lesta,
A brisa faz subir o incenso fino.

A cerimônia excelsa tem início.
Reconcentrada em prece emocionante,
A mata imensa fica silenciosa.

O próprio Deus celebra o sacrifício
E ergue no céu, num símbolo brilhante,
A hóstia do sol, serena e esplendorosa.

Helena Kolody


quinta-feira, 19 de abril de 2012

A ORQUÍDEA


A orquídea parece
uma flor viva, uma
boca, e nos assusta.
Flor aracnídea.
Vagamente humana,
boca, embora feita
de inocentes pétalas,
já supõe perfídia.
Já supõe palavra
embora muda
Já supõe insídia.
Que estará dizendo
o lábio quase humano
da orquídea?


Cassiano Ricardo
in Antologia Poética

PARTO COM O AR...


Parto com o ar...
Sacudo minha neve branca ao sol que foge,
Desfaço minha carne em redemoinhos de espuma,
Entrego-me ao pó para crescer nas ervas que amo,
Se queres ver-me novamente procura-me
Sob teus sapatos.
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Não obstante serei para ti boa saúde,
E filtrarei e comporei teu sangue.
E se não conseguires encontrar-me, não desanimes
O que não está numa parte está noutra,
Nalgum lugar estarei a tua espera

Walt Whitman
- Tradução Monteiro Lobato

domingo, 8 de abril de 2012

IMAGEM


IMAGEM

No firme azul do desdobrado céu
Decantarei a mínima magia
Das sensações mais puras, melodia
Da minha infância, onde era apenas Eu.

Da realidade nua desce um véu
Que, já sem mar, apenas maresia,
me vem tecer aquela chuva fria,
Que prende esta janela ao claro céu.

Despido o ouropel desvalioso,
Já não apenas servo, mas o Rei
Da luz da minha lâmpada nomeia,

Assim procuro o centro misterioso
Do mundo que hoje habito, onde serei
Concêntrica expressão da vida inteira.

Alberto de Lacerda

sexta-feira, 6 de abril de 2012

POEMA RECLUSO


POEMA RECLUSO
(Genaura Tormin)

No horizonte,
Moribundo se curva o sol poente.
Um dia a mais passou sem que eu te visse.
O poema recolheu-se medroso
Ao frio de minha tristeza.
Tudo extremamente só!

Os momentos se arrastam
E a nossa música agoniza,
Chegando a ferir os meus ouvidos.
Há um marasmo no ar.
Um gosto fúnebre,
Uma carência dolorida.
Tudo tão eterno, feito a saudade tua.

Não há aroma de flores,
Nem cantar de pássaros...
O vento está parado,
Nem sibila a ramagem lá fora.
Apenas a companhia de fantasmas.

Parece o fim!
Faz frio na alma,
E congelado está o amor
Nos compartimentos de mim.

quinta-feira, 22 de março de 2012

DIALÉTICA DAS CONSCIÊNCIAS


DIALÉTICA DAS CONSCIÊNCIAS

No cerne do mundo
está a exposição de Entes.

Nessa massa original,
o informe individual,
aprende,
educa-se
e desenvolve-se.

A forma aparece
na moldagem da inteligência.

A transição dialogante entre os homens,
acontece
no exterior e nos desafios da Natureza.

Entre o Ser, o Outro e os demais universos
– tangíveis e intangíveis –
há um nexo indissociável.

E,
resultante dum processo de auto-afirmação,
o Eu existe pelo confronto.

Mas a Consciência apenas evolui no respeito!

Vicente Ferreira da Silva
in Metafísica [Poética]

terça-feira, 20 de março de 2012

(DES)CONHECIMENTO


(DES)CONHECIMENTO

Nós não conhecemos o ser das coisas.
Deciframos o mecanismo
mas ignoramos a razão.

Nós não nos conhecemos!

Então,
deveremos ousar
desvendar
os criptogramas
do infinitamente grande
e do infinitamente pequeno?

Não é verdade
que ainda nos desconhecemos?
Não é verdade
que ainda desconhecemos
o ser das coisas?

Sem conhecer, seremos infinito?

Vicente Ferreira da Silva,
em Metafísica [Poética]

sábado, 17 de março de 2012

MEDITAÇÃO SOBRE A MORTE (II)



MEDITAÇÃO SOBRE A MORTE (II)

O Universo não é infinito.
O Homem também não.

A morte é uma passagem
para um período de tempo maior
no todo finito do Universo.

Mas neste ou no próximo é igual.
Todo o tempo é temporário.

Vicente Ferreira da Silva
in Metafísica [Poética]


quarta-feira, 14 de março de 2012

E quando a tempestade tiver passado



"E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa: Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.”

Haruki Murakami

terça-feira, 13 de março de 2012

OUTONO


OUTONO

...e vem o outono.

Com o outono fogem, módulos,os pássaros
chega a penumbra, o sonho.
Nas folhas outonais há todo um arco-íris
merencório,
opalescente.
Um arco-íris de crepúsculos
sussurantes, madrugadas rarefeitas,
um arco-íris de saudade.

Cai a primeira folha,
- primeira gota d'água
transbordando cachoeiras
de folhas multicores
no leito das estradas.

Caminho
de árvores, que dizem o primeiro
adeus
as verdes folhas ainda banhadas pelo sol
do passado estio.

Cai a folha
transformada em dançarina
pela orquestração do vento.

E rodopiam as bailarinas
no cromatismo da música outonal.

Nair Baptista Schoueri
In A Pedra e o Ser

domingo, 11 de março de 2012

RetribuiR


RetribuiR

Cada incursão ao desconhecido
é um passo no sentido
da mortalidade
e de nada ser na humanidade.

O atrevimento constante
leva-nos à nossa exiguidade
e impele-nos a persistir
na procura do pleno.

E o que nasce singular
deve tornar-se conexo.
Porque só realmente somos
quando somos solitários com outros.

Entidade exponencial?

Sim!
A plenitude alcança-se
quando submergidos na confluência
destes vastos universos de sensuais sensações.

A Luz do poema, ou
Ao fundo do jardim, ou
O mar atinge-nos, ou
A luz do voo. Ou …

Muitos mais há.
E que belos são!

Mas estes crescem em mim.


Vicente Ferreira da Silva