domingo, 1 de julho de 2012

ETERNIDADE




Conheci-te de noite: por isso te chamo estrela.
Conheci-te de dia: por isso te chamo claridade.
Conheci-te em todas as horas: por isso
te chamo eternidade.

Albano Martins,
in “Vocação do Silêncio”

SINTO OS MORTOS NO FRIO DAS VIOLETAS...



Sinto os mortos no frio das violetas
E nesse grande vago que há na lua.

A terra fatalmente é um fantasma,
Ela que toda a morte em si embala.

Sei que canto a beira de um silêncio,
Sei que bailo em redor da suspensão,
E possuo em redor da impossessão.

Sei que passo em redor dos mortos mudos
E sei que trago em mim a minha morte.

Mas perdi o meu ser em tantos seres,
Tantas vezes morri a minha vida,
Tantas vezes beijei os meus fantasmas,
Tantas vezes não soube dos meus atos,
Que a morte será simples como ir
Do interior da casa para a rua.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Poemas escolhidos

RAÍZES




Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lodão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.



Jorge Sousa Braga  

sábado, 30 de junho de 2012

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU






Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.


Carlos Drummond de Andrade


EPITAFIO



Barcos ou não
ardem na tarde.

No ardor do verão
todo o rumor é ave.

Voa coração.
Ou então arde.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 28 de junho de 2012

LUSCO-FUSCO




Luz crepuscular
à busca de identidade,
Sombras ambulantes...

Delores Pires,
in O Livro dos Haicais

TALVEZ SEMENTES...



Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.


Pablo Neruda
In Caçador de raízes

INSCRIÇÃO



A beleza do céu anda na terra...

No silêncio das árvores verdes,
no luxo
dos jardins de sombras onde passeiam
as aves ilustres
em torno dos lagos, que são taças de luar...

A beleza do céu anda na terra...


Onestaldo de Pennafort,
in Poesia

quarta-feira, 27 de junho de 2012

PINHEIRO



O tronco frondoso
alado ao céu se assemelha
a um gigante.

Delores Pires,
in O Livro dos Haicais

ECOLOGIA



A fim de terdes
paz que a natureza traz
buscai-a nos verdes.

Delores Pires,
in O Livro dos Haicais

CRIAÇÃO





A folha cai cai.
O breve sopro tão leve
desenha o haicai.

Delores Pires,
in O Livro dos Haicais

O PRIMEIRO POEMA



Água, brancura e luz da madrugada,
E nardos orvalhados, olhos tardos,
E regressos de longe, lentos, vagos,
De espiral que se expandem ou nebulosa.
Assim diria que o mundo se criou:
Gesto liso das mãos do universo
Com perfumes e auras que anunciam,
Noutras mãos de quimera, outro verso.

José Saramago
In Provavelmente Alegria

ALBERTO CAEIRO



Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos —
Haja.


Alberto Caeiro,
In Poemas Inconjuntos

METAMORFOSE


No combate entre o gelo e o fogo
A vida universal desdobra-se em ciclos
No espaço de mil séculos.
Tomamos consciência do cósmico,
Tentamos ligações com o espírito há muito abatido
E a alma afunda em dimensões pulverizadas.
Dá-se a recuperação das espécies rejeitadas,
O achado do perdido não procurado.
Do implacável e do flamejante
O universo não está terminado.
Há mutações silenciosas em cada instante que soçobra
E que só percebemos da metamorfose de mil em mil séculos.

Somos casulos pendurados nas folhas de árvores sem nome,
Casulos à espera da metamorfose cíclica do tempo.


Adalgisa Nery

In 'Erosão'

terça-feira, 26 de junho de 2012

CANÇÃO DA MANHÃ




No esguio minarete do pinheiro,
O sabiá convida para a prece

Canta a baila a água trêfega das fontes,
Na cristalina infância dos rios.

Fragílimas filigranas de teias orvalhadas
tremeluzem ao sol.

Ostenta um lustro novo o verde da folhagem,
Comunicando ao velho encanto da paisagem
Um brilho inaugural.

Fulvo oceano de luz em que submerge o mundo!
Riso feliz que assoma aos lábios sem querer...
Ó gloriosa manhã, como é doce viver!

Helena Kolody

MUNDOS



Assim como o universo indefinido e imenso,
onde rebrilha e cresce um turbilhão suspenso,
De inumeráveis sóis, de mundos estelares,
É o infinito interior de nossa inteligência,
Iluminado pelos grandes pensamentos
Que refulgem na mente e giram ignorados
Na órbita multiforme em que foram gerados.


Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

MUNDO




No oceano eletromagnético,
o planeta é um grão de areia
na clara mancha de poeira
da Via Láctea.
Mundo mínimo, ressoante de inquietos mares
e de múrmuras florestas...
Terra pujante dos homens,
refervescente de vida.


Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

segunda-feira, 25 de junho de 2012

VOZES DO MAR



No marulhar da vaga buliçosa
O velho mar declama, noite e dia,
Uma estranha canção misteriosa
Que a muito ouvido encanta e delicia.

Ora profere, em grita jubilosa,
Hinos festivos, cantos de alegria,
Ora modula, em triste voz chorosa,
Trenos de dor e salmos de agonia.

Não raro ele tem brados de amargura,
Uivos de fera e algo que parece
O gargalhar sinistro da loucura.

E às vezes lembra, na toada mansa,
Rumor de beijos, segredar de preces,
E balbucios meigos de criança.

Pe. Antônio Tomaz

sexta-feira, 22 de junho de 2012

FOLHA




Era uma folha pousada
no cotovelo do vento:
e pairava, deslumbrada,
entre morte e movimento.


Era uma folha: lembrava,
de tão frágil, o momento
em que a vida me ficava
escrava do teu juramento.


Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!




David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 21 de junho de 2012

FLOR ABERTA



Flor aberta no crespúsculo
canto
funeral no espaço.

O tempo claro
nada
esponsal de angústia.

Aço duro como pedra, amor
duro como aço, angústia
repetida no espaço, sombra
em funeral de nós.

Flor aberta no espaço
canto
tempo suprimido
amor pelo meio
e o vasto desejar, no esquecimento.



Álvaro Pacheco
In "Seleção de Poemas 

HORA GRAVE




Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim. 


Rainer Maria Rilke 

O CISNE




Este cansaço de passar como que atado
a coisas que ainda não foram feitas,
parece o caminho incriado do cisne.

E o morrer, esse desapegar-se
do fundo em que diariamente estamos,
seu tímido abandonar-se às águas

que mansamente o acolhem e por serem
felizes e já passadas, onda a onda,
sob seu corpo se retraem;

então, firme e tranqüilo,
com realeza e crescente segurança,
abandona-se o cisne ao deslizar.


Rainer Maria Rilke
Trad. Dora Ferreira da Silva 

A LUA



Há tanta solidão nesse seu ouro.
A lua dessas noites não é a lua
Que viu o primeiro Adão. Os longos séculos
Da vigília humana cumularam-na
De antigo pranto.
Olha-a.
É teu espelho.


Jorge Luis Borges
in A Moeda de Ferro

quarta-feira, 20 de junho de 2012

NÃO FUJAS




Não fujas
Quero apenas
Que me deixes derramar
A minha escura tristeza
No teu coração.

Quero apenas que recebas em ti,
No teu ser,
No teu espírito,
A minha tristeza escura,
A tristeza que me deste,
Que veio de ti,
Que nasceu das tuas imagens,
E da tua pérfida doçura.

Quero que bebas a minha tristeza
Como um vinho antigo.
E o que foi amargo
E se formou de lágrimas,
De angústias,
E o que foi para mim desespero,
Inquietação
E sofrimento,
Serás doce, aos teus lábios,
Como um vinho generosos
E antigo.

Quero que bebas a minha tristeza.




Augusto Frederico Schmidt,
in O Caminho do Frio

terça-feira, 19 de junho de 2012

MAR E VENTO



Mar e vento. É o que somos. Mar, com
profundidades abissais, com tormentas, e com a
infinita inquietação prisioneira. Vento, com ânsia
e o destino da liberdade igualmente infinita.

Mar e vento não seriam completos, um sem o
outro. A realidade que na vasta natureza tanto
nos comove não é apenas o mar, ou o vento.

É o vento fundindo-se no mar. As ondas são
vento liquefeito, e o vôo do vento é uma medida
das solidões do mar.

Na vasta natureza, e na vastidão do que somos,
o que nasce desse encontro é a cantiga. O vento
e o mar fundindo-se numa queixa única, e infinita.

A cantiga é sempre queixa, e sempre queixa infinita.
Mesmo se fala de deslumbramento.


Tasso da Silveira
in Poema de Antes

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A VIDA



Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;

No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
— A vida universal palpita e canta!

Vive até, no seu sono, a pedra bruta . . .
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, — essa harmonia que se escuta

Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!



Olavo Bilac 

sábado, 16 de junho de 2012

PAULO LEMINSKI



um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval

Paulo Leminski
in Caprichos e Relaxos

MAR




Antes que o sonho (ou o terror) tecera
mitologias e cosmogonias,
antes que o tempo se cunhasse em dias,
o mar, sempre o mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é o violento
e antigo ser que destrói os pilares
da terra, e é só um e muitos mares,
e abismo e resplendor e azar e vento?
Quem o olha vê-o pela primeira vez,
sempre. Com o assombro tal que as coisas
elementares deixam, as formosas
tardes, a lua, o fogo da fogueira.
Quem é o mar, quem sou eu? Sei-o no dia
que virá logo após minha agonia.


Jorge Luis Borges
Tradução: José Bento 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

FLOR DE CACTO





Flor de cacto, flor que se arrancou
À secura do chão.
Era aí o deserto, a pedra dura,
A sede e a solidão.
Sobre a palma de espinhos, triunfante,
Flor, ou coração?



José Saramago,
In Provavelmente Alegria 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

AZUL – TARDE



Ó pura, maravilhosa visão
- quando entre púrpura e ouro,
grave e propício, vais baixando em paz,
resplandecente azul do céu da tarde!

Lembras um mar azul onde a fortuna
com a âncora se encerra
num bendito repouso. Cai do remo
a última gota de mágoa da terra.


Hermann Hesse
In: Andares

terça-feira, 12 de junho de 2012

VIVER



Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros, pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar,
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!

Mario Quintana
In Baú de Espantos

domingo, 10 de junho de 2012

FLORAL



É isso.É primavera.
estou feliz, em febre.
Outros
politizam suas dores.
Eu
me polenizo
ou polemizo
- com as flores.

Affonso Romano de Sant'Anna,
in Poesia reunida

sexta-feira, 8 de junho de 2012

POEMA DO TEMPO




Tem o importante que sabe que é comum
Tem o comum que se acha importante
Tem o diamante que sabe que é pedra
Tem a pedra que se acha diamante
Enquanto isso, o tempo passa levando
Comuns, importantes, pedras e diamantes.

Ricardo Azevedo
In Ninguém sabe o que é um poema

LIÇÃO DO DIA




Cuidar da vida
como quem cuida
de uma casa
de um jardim
de uma paisagem
de um bicho
de um filho
de um corpo
de um sonho
de um amigo
de um amor

Cuidar do mundo
como quem cuida
da própria vida

Ricardo Azevedo
In Ninguém sabe o que é um poema

quarta-feira, 6 de junho de 2012

ESTAÇÕES





Aprendi os cheiros
Do alecrim e da hera
E ao azul do céu
Chamei Primavera.


Encontrei um fruto
Na concha da mão
E à sede da água
Dei um nome: Verão.


Descobri o sol com olhos de sono,
À tristeza das folhas dei o nome de Outono
Aprendi os modos do bico mais terno:
Um cão de peluche
Com o frio do Inverno.


Juntei as estações
Com pés de magia
E à soma das quatro
Chamei poesia.


José Jorge Letria



terça-feira, 5 de junho de 2012

...



A palavra garça, em meu perceber é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
O corpo sônico da palavra
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso.
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.

Manoel de Barros

segunda-feira, 4 de junho de 2012

ALGO EXISTE



Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.


Emily Dickinson 

domingo, 3 de junho de 2012

‎'CONSISTIR'





Ondulação de águas
plumagem de garça
rocha que não cede
fúria do mar que avassala

paisagem calma
olhar de mãe
sol forte no deserto
leveza de pássaro feliz

harmonia de um gesto
água límpida da fonte
evocação de um beijo
na grandeza do AMAR.

Alvina
Miguel Torga Tzovenos,
in Palavras ao Tempo

sexta-feira, 1 de junho de 2012

CONFIDÊNCIAS



Eu fui contar, chorando, as minhas penas
Ao velho mar; e as ondas buliçosas,
Julgando que eu diria essas pequenas
Mágoas comuns ou queixas amorosas,

Não quiseram cessar as cantilenas
Que entoavam nas praias arenosas;
Mas, pouco a pouco, imóveis e serenas,
Quedaram todas, por me ouvir ansiosas.

E concluída a narração de tudo,
Mostrou-se o mar (pois nunca tinha ouvido
História igual) sombrio e carrancudo.

Depois, rolando as gemedoras águas,
Pôs-se a chorar também compadecido
Das minhas fundas, dolorosas mágoas.


Pe. Antônio Tomaz

quinta-feira, 31 de maio de 2012

CHAMADO DA POESIA


Ouço a poesia que me chama.
São vozes que passam numa estrada
Agitando lembranças
Que não moravam na lembrança.

Ouço a poesia que me acena.
E vejo alguém, um vulto ao longe,
Dançando.Quem dançará para os meus olhos,
já fatigados e desertos?
Quem dança assim, na noite ardente?
Ó corpo em flor, que o vento em música mudado
Como uma rosa despetala.

Quem canta, assim, na noite rouca?
Quem canta, assim , o amor do mundo celebrando?

Ouço a poesia que me acena!

É efêmero, é o amor da terra,
É o barro, é o limo,
É a forma frágil e mentirosa.
É o seio em flor,
É o cheiro quente,
É a juventude fugitiva,
É o que a poesia transfigura,
É o amor do mundo,
É o grande engano
Que dança

Ouço a poesia que me chama
E me dá a noite,
A noite cálida e exaltada,
Envenenada pela música,
A noite cheia de desejos
Que, como um corpo, se oferece.


Augusto Frederico Schmidt
In ‘Um Século de Poesia’

quarta-feira, 30 de maio de 2012

LIBERDADE



_ Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
a pedir-te, humildemente,
o pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
nem me ouvia.

_ Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
de emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
a fé que ressumava
da oração.

Até que um dia, corajosamente,
olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
saborear, enfim,
o pão da minha fome.
_Liberdade, que estais em mim,
santificado seja o vosso nome.


Miguel Torga,
Diário XII

RUÍNAS





Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais alto do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar.


Florbela Espanca,
in "Livro de Sóror Saudade"

terça-feira, 29 de maio de 2012

OUTONO



Outono!
Qualquer coisa lilás,
Schumann em violino,
Ângelus tangido em lentidões de sino...
Preguiçoso torpor de um fim de sono.
Espelho de água quieta dos canais!

Cá dentro, a idade,
restos de sonho e de mocidade;
trechos dispersos
de velhas ambições falhas na vida,
parcelas de antigas ilusões
que ainda, a custo, concentro
e invoco até agora!

Lá fora, a descida.
O crespúsculo inócuo destes dias,
a tristeza das folhas amarelas,
e a cantar sobre estas ruínas frias,
a monótona toada de meus versos.

Desce, Poeta!
A descida é suave...
Não te demanda rigidez de músculos
e nem exige que teu passo apresses...
A natureza é quieta,
da ingênua quietação de um sonho de ave,
e há paina nos crepúsculos...

No outono a luz é um eterno poente,
que mais à calma que ao rumor se ajeita;
Brilha, tão de manso e calma,
que até parece unicamente feita
para o estado d'Alma
de um convalescente.


Mário Pederneiras,
in Outono


POEMA DA VIDA



Os anos passam,
As coisas não se repetem,
São como os rios
Que seguem o seu curso,
Suas águas correm sem destino
E jamais voltam as nascentes...
Seria tão bom se a existência
Não fosse semelhante aos rios
Que pudessemos voltar
Voltar pelo menos uma vez,
Às nossas antigas origens,
Às nossas velhas raízes,
Plantar árvores,
Comer frutos,
Vê-las crescerem novamente...
Mas somos passageiros pela terra.
Nascemos como os rios,
Seguimos o nosso curso,
Possuímos enfim uma existência fugaz...
Dirás que tudo não passa de palavras,
De vã filosofia,
Mas é na realidade,
Nós nascemos,
Nós vivemos
E finalmente morremos...
A morte é a maior realidade da vida.


Olympiades G.Corrêa


domingo, 27 de maio de 2012

SINTAXE



Eu me acrescento aos rios e aos rios me descem.
E me acrescento aos peixes. Nele deito
e com os musgos preparo alguns projetos.
Nos liquens boto andaimes que florescem.

E me caso com as pedras , conchas e ecos,
onde as lesmas pernaltas se intumescem.
E me acrescento a todos os espécimes
que se aleitam na orla, entre os insetos.

Ovos de larvas, vespas renitentes
e os mais jovens orvalhos em resíduos
se acendem. Borboletas se acrescentam

à sentaxe de um sol intermitente.
E eu vento, vento algas e libidos.
E em rios me acrescento, onde não venta.


Carlos Nejar
In Amar, A mais alta constelação

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A GRANDE DÚVIDA


Porque hei sofrido tantos golpes rudes,
Às vezes penso que outra vida existe,
Para ficar mais cético e mais triste
Com o meu destino de vicissitudes.

Nem sofrendo, às celestes amplitudes
Hei de ascender à altura que atingiste,
Por não poder, na prova que me assiste,
Aos meus erros opor tuas virtudes.

Assim temo, a evocar-te a imagem linda,
Que após a morte, venha a eternidade
Esta separação tornar infinda...

E, então, o sentimento que me invade,
Sem a esperança de te ver ainda,
É dor eterna, não é mais saudade.


Da Costa e Silva