segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

FORAM EMBORA OS PÁSSAROS




Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos meus ombros,
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

EU TE BAPTIZO EM NOME DO MAR




Eu te baptizo em nome do mar,
disse minha mãe com barcos na voz.
E as ondas enlearam nas águas o meu nome,
abrindo nas fendas do corpo um impulso
salgado que me brandiu o sangue.
Sei agora que há âncoras afogadas
nos meus olhos: nítido eco de todas as demandas.


Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O PEQUENO PERSA




É um pequeno persa
azul o gato deste poema.
Como qualquer outro, o meu
amor por esta alminha é materno:
uma carícia minha lambe-lhe o pêlo,
outra põe-lhe o sol entre as patas
ou uma flor à janela.
Com garras e dentes e obstinação
transforma em festa a minha vida.
Quer-se dizer, o que me resta dela.

Eugênio de Andrade


MANOEL DE BARROS




Os passarinhos se molhavam de
vermelho na manhã.



Manoel de Barros
 - Compêndio para uso dos pássaros|


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A CHUVA





Bruscamente a tarde se clariou
Porque já cai a chuva minuciosa.
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que sem dúvidas acontece no passado.

Quem escuta cair há recobrado
O tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor chamada rosa
E a curiosa cor do vermelho.

Esta chuva que cega os cristais
Alegrará em perdidos arredores
As negra uvas de uma videira certamente

Pátio que já não existe. A molhada
Tarde me trai a voz, a voz desejada,
De meu pai que retorna e que não morreu.

Jorge Luis Borges




CHEIRO DE OUTONO




Mais uma vez é um verão que nos abandona,
agonizando num temporal atrasado:
tranquila a chuva rumoreja, enquanto um cheiro
amargo e tímido vem do bosque molhado.

Na relva pálida a liliácea se retesa
em meio a grande profusão de cogumelos;
tem-se a impressão de que se esconde e se retrai
o nosso vale, ontem ainda imenso e belo.

Retrai-se e cheira a timidez e a amargura
o mundo, com toda a claridade perdida:
prontos, olhamos o temporal atrasado,
pois acabou-se o sonho de verão da vida!


Hermann Hesse
In Andares






CHUVA




A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.


Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.


Dentro de nós existe uma tarde mais fria...


Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...


Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.


Chove dentro de nós... Chove melancolia...



Ribeiro Couto
São Paulo-1898-1963)






ETERNA CHUVA




Chove lá fora e a chuva apaga a poeira
Da minha estrada que não tem mais fim!
Seria bom que pela vida inteira
Essa chuva caísse sobre mim!


Sinto que a minha estrada sem palmeira,
Deserta, vasta e prolongada assim,
Impulsiona a minha alma sem canseira,
Para o mundo esquisito do senfim!


E eu marcho resoluto para a frente!
Cai-me a chuva nos ombros, de repente
Eu mais apresso a minha caminhada!


E assim prossigo nesse sonho eterno,
Sob a sentença de um constante inverno,
Sem promessas de sol na minha estrada!



Jansen Filho
In: Obras Completas











POBRES ROSAS DE SINTRA



Toma essas rosas de Dezembro, agora,
Que ao frio, à chuva, esta manhã colhi,
Elas trazem humildes, lá de fora,
Saudades da montanha até aqui.

Hão de morrer d’aqui a pouco, embora!
Em cada curva onde o perfume ri,
Trazem mais o terno duma hora,
Que um frágil coração bateu em ti.

Aceita-as pois, mas, como a vida é breve
E, um dia, perto, leve e branca a neve,
Há-de cair sobre o teu peito em flor,

(Não vá Dezembro algum murchar-te o encanto)
Deixa tu que eu te colha agora, enquanto
Tens sol, tens mocidade e tens amor.



Nunes Claro 
De "Cinza das Horas"

MANHÃ DE CHUVA




As pessoas 
vão caminhando...
Ares tristes...
Rostos
molhados...

O carro passa
e respinga
o pedestre.

O dia 
está sombrio
e sério...
com a solenidade
dos dias
de chuva!


Delores Pires
In A Estrela e a Busca

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

ANO NOVO





Prepara-se o jardim.
Há um movimento do botão à flor
em câmara lenta.
O rosto pequeno das violetas
esconde seu perfume nas folhas
sussurrando segredos
                    salta o sabiá na aragem
e suplica à rosa de ontem
que não desfolhe seu rubor.

Promete a nova noite
a estrela que quisermos.
O CISNE ? constelação que amamos ?
cintila noutro céu.
                    Entre ar e folhagem
o pedido calado alcança
um pássaro estelar.

Dora Ferreira da Silva,
 in Poesia reunida.



O RIO QUE ME PERCORRE...




O rio que me percorre já não transborda
Passou a época das chuvas lacrimais
As águas correm lentas, as margens observam
Ouve-se novamente o som da floresta
Plantas crescendo lentamente
Os frutos podres caindo por terra
Não há nada de novo ou de velho
O tempo deu consciência á minha tristeza



Martha Medeiros

sábado, 20 de dezembro de 2014

"NOSTÁLGICA N.º 2"



Esse tempo que passa como um vento brando
agitando um ramo desfolhando o aroma
esse tempo de asa entre flor e flor
que leva pólen e insetos embriagados
esse vento quase tristeza em meus lábios
que vai levando e me deixando a sós
fala da alma que me desabita
do meu corpo ausente quando não estás


Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida










NÃO SEI





Não sei onde começa o céu e nem acaba.
O infinito se dissolve como números na névoa.
Vou-me, porque a voz que chama é a mesma que chamava.
Será a mesma, acaso, a mão que ainda me leva?



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ORÁCULO




Quieta coruja do bosque negro,
onde o azul-indigo e o verde gaio?
Nos teus rios? No monte grego?
Ou na Fenicia praia?

Agora, tarde. Mas, ontem, cedo.
Árvore exausta. Cansado remo.
Clássica luz de maio.

Ah! fuga antiga! Nas águas crespas,
oscilam juntos Polibio e Laio.
Sempre serpentes bebendo
estrelas.
E um vento que desmaia.

Dança Eufrosina por cinzas Tênues.
E a transparente sombra de Tália
move na areia seus vãos desenhos.
-Só nas nuvens Aglaia!

Cecília Meireles,
in Vaga Música


sábado, 13 de dezembro de 2014

ASSIM




Assim como um cheiro de curral e estrume,
mugidos nas pastagens, fresco
fluir de água (de olhos d’água), assim
como se em sítios úmidos, nos canteiros
em socalcos, o verde das folhagens,
os frutos já de vez, eis que agora
o que nos vem é este gostoso vento
rural, vento molhado das manhãs
que se banham nuas nas águas sem malicia.



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

CONTEMPLAÇÃO





Não acuso. Nem perdôo.
Nada sei. De nada.
Contemplo.

Quando os homens apareceram
eu não estava presente.
Eu não estava presente,
quando a terra se desprendeu do sol.
Eu não estava presente,
quando o sol apareceu no céu.
E antes de haver o céu,
EU NÃO ESTAVA PRESENTE.

Como hei de acusar ou perdoar?
Nada sei.
Contemplo.

Parece que às vezes me falam.
Mas também não tenho certeza.
Quem me deseja ouvir, nestas paragens
onde somos todos estrangeiros?
Também não sei com segurança, muitas vezes,
da oferta que vai comigo, e em que resulta,
pois o mundo é mágico!
Tocou-se o Lírio e apareceu um Cavalo Selvagem.
E um anel no dedo pode fazer desabar da lua um temporal.

Já vês que me enterneço e me assusto,
entre as secretas maravilhas.
E não posso medir todos os ângulos do meu gesto.

Noites e noites, estudei devotamente
nossos mitos, e sua geometria.

Por mais que me procure, antes de tudo ser feito,
eu era amor. Só isso encontro.
Caminho, navego, vôo,
- sempre amor.
Rio desviado, seta exilada, onda soprada ao contrário,
- mas sempre o mesmo resultado: direção e êxtase.
À beira dos teus olhos,
por acaso detendo-me,
que acontecimentos serão produzidos
em mim e em ti?

Não há resposta.
Sabem-se os nascimentos 
quando já foram sofridos.

Tão pouco somos, - e tanto causamos,
com tão longos ecos!
Nossas viagens têm cargas ocultas, de desconhecidos vínculos.

Entre o desejo do itinerário, uma lei que nos leva
age invisível e abriga 
mais que o itinerário e o desejo.

Que te direi, se me interrogas?
As nuvens falam?
Não. As nuvens tocam-se, passam, desmancham-se.
Às vezes, pensa-se que demoram, parece que estão paradas...
Confundiram-se.

E até se julga que dentro delas andam estrelas e planetas.
Oh, aparência...Pode talvez andar um tonto pássaro perdido.
Voz sem pouso, no tempo surdo.

Não acuso nem perdôo.
Que faremos, errantes entre as invenções dos deuses?

Eu não estava presente, quando formaram 
a voz tão frágil dos pássaros.

Quando as nuvens começaram a existir,
qual de nós estava presente?


Cecília Meireles
In: Mar Absoluto


domingo, 30 de novembro de 2014

O MUNDO DO SONHO




O mundo do sonho é silencioso
como o mundo submarino. Por isso
é que faz bem sonhar.

Mario Quintana
in Caderno H





RUA



Procuro a rua
que ainda me resta:
é longa, é alta,
não é essa. 

Esqueço o nome,
por sono ou pressa:
é alta, é clara,
mas não é esta. 

Em cada esquina
havia festa:
é clara, é vasta,
não é essa. 

Nunca me lembro
onde começa:
é vasta, é longa,
mas não é esta. 

Rua que não
se manifesta:
é longa, é alta,
não é essa.


Cecília Meireles,
in Poesia Completa
Sonhos 


CÂNTICO I





Não queiras ter Pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto, 
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
te ponha em tudo, 
como Deus.

Cecilia Meireles
In: Cânticos 






sexta-feira, 28 de novembro de 2014

"TANTA TRISTEZA NAS ÁGUAS ..."



Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Em que reino vive agora
a princesa que vivia
na infância sob amoreiras
acesas à luz do dia?

Onde o sol, onde o tumulto
de pombas no céu ardente
onde o frio da tarde morta
entre escombros do poente?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Onde a lua marinheira
no alto céu que surgia –
negro mar cheio de espantos
mordido de ventanias?

Onde o Rei do reino ausente
onde a fada que fazia
do mundo um sono profundo
e do sonho a luz do dia?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.


Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

"SONS PERDIDOS"




Vês o céu, a campina, a natureza,
Este campo infinito de poesia?
Vês as nuvens doiradas que se agitam
Ao cair da neblina em pleno dia?

Vês as garças que pairam sonolentas
Nesta praia isolada que me inspira?
Pois, cantor, o que vês, tudo pertence
Da minh'alma sonora à rude lira.

Serenatas de brisa - vozes soltas
De folhagem bolida pelo vento,
tudo n'alma me cai como um idílio,
Tudo acolhe a sorrir meu pensamento.

Amo a terra somente pelas flores,
Pelas brumas azuis do alvorecer,
Pelas asas gentis das borboletas
Que me fazem de inveja estremecer.

Amo o céu à tardinha pelas cores
Que ele ostenta a sorrir ao pôr-do-sol;
Amo os raios da lua em noite bela...
Amo as nuvens fagueiras do arrebol.

Amo as brisas do mar - as brisas mansas
Que me inspiraram sonhos de alegria;
Que embalsama a terra onde adormeço
Ao balanço da rede em pleno dia.

A minha alma é formada de harmonias
E só vive de luz, de vibrações;
Como a flor que viceja à beira d'água,
Ela vive a cantar nas solidões.



Júlia da Costa 
em 'Flores Dispersas'
 






CANÇÃO DO EXÍLIO





Alma,
Pássaro solitário,
como é difícil abranger-te !
Nem sei como defender-te,
incomensurável que és.
Num só crepúsculo,
Passeias todas as paisagens,
visitas todas as terras,
e te recolhes triste
À morada que te serve
De cárcere...

Dantas Mota
In Planície dos Mortos

terça-feira, 25 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS



O gorjeio dos pássaros tem um perfume de sol?


|Manoel de Barros
 - Menino do Mato|



domingo, 23 de novembro de 2014

COMO UMA FLOR VERMELHA




À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Poesia

AS NUVENS




As nuvens
não têm preocupação estética.
Sou eu
que as organizo
para meu regozijo esperto.

Elas simplesmente se desfazem
e nem disto sabem
mas eu as estudo, eu as apuro
como Turner
e alguns poetas
que organizaram  o entardecer.

A natureza
não tem preocupações  morais.
A natureza não mata
nem odeia.

Ou melhor:

mata e ama
de igual maneira
e todo movimento
é  desejo
de viver.

A morte
é apenas uma forma estranha
da vida

se refazer.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Sísifo desce a montanha 




MINHA TERRA




Todos cantam sua terra
Também vou cantar a minha
Nas débeis cordas da lira
Hei de fazê-la rainha. 
– Hei de dar-lhe a realeza
Nesse trono de beleza
Em que a mão da natureza
Esmerou-se em quanto tinha. 

Correi pras bandas do sul: 
Debaixo de um céu de anil
Encontrareis o gigante
Santa Cruz, hoje Brasil. 
– É uma terra de amores, 
Alcatifada de flores, 
Onde a brisa fala amores
Nas belas tardes de abril. 

Tem tantas belezas, tantas, 
A minha terra natal, 
Que nem as sonha o poeta
E nem as canta um mortal! 
– É uma terra encantada
– Mimoso jardim de fada –
Do mundo todo invejada, 
Que o mundo não tem igual.



Casimiro de Abreu (1839-1860)
in Primaveras

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

APONTAMENTO




Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!

Subo por essas horas
solitária e sincera, 
e encontro, exausta e pura, 
minha alma que me espera.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa

domingo, 9 de novembro de 2014

TRÊS ORQUÍDEAS



As orquídeas do mosteiro fitam-me com seus olhos roxos.
Elas são alvas, toda pureza,
com uma leve mácula violácea para uma pureza de sonho triste, um dia.
Que dia? Que dia? Dói-me a sua brevidade.
Ah! não vêem o mundo. Ah! não me vêem como eu as vejo.
Se fossem de alabastro seriam mais amadas?
Mas eu amo o terno e o efêmero e queria fazer o efêmero eterno.

As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem,
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho,
o tênue caule de tão delicado verde.
Que elas não vêem o mundo, que o mundo as visse.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?
Antecipo-me em sofrer pelo seu desaparecimento.
E aspira sobre elas a gentileza igualmente frágil, a gentileza floril
da mão que as trouxe para alegrar a minha vida.

Durai, durai, flores, como se estivésseis ainda
no jardim do mosteiro amado onde fostes colhidas,
que escrevo para perdurares em palavras,
pois desejaria que para sempre vos soubessem,
alvas, de olhos roxos (ah! cegos?)
com leves tristezas violáceas na brancura de alabastro.

Cecília Meireles
In "Flor de Poemas" 








MARINHA




O BARCO é negro sobre o azul.

Sobre o azul, os peixes são negros.

Desenham malhas negras as redes, sobre o azul.

Sobre o azul, os peixes são negros.
Negras são as vozes dos pescadores,
atirando-se palavras no azul.

É o último azul do mar e do céu.

A noite já vem, dos lados de Burma,
toda negra,
molhada de azul.

- a noite que chega também do mar.

Cecilia Meireles.
In Poemas escritos na ìndia


CAVALO BRANCO




Cavalo branco
de crinas de ouro
buscando o trevo
entre as margaridas, 

que é da fortuna
da donzelinha,
solta da sela
em várzeas antigas?

E as velhas fontes
contam histórias,
tristes, risonhas,
de terras perdidas,

e as lavadeiras
detrás dos muros
cantam, muito alto,
chorosas cantigas.

Cavalo branco
de crinas de ouro,
mostra-me o trevo
entre as margaridas!

Cecília Meireles
In: Canções


A CHUVA


 

O bom da chuva é que parece que não tem fim...
Nenhuma das outras coisas me dá essa resignada,
tranquilizadora sensação de fatalidade.

Mario Quintana,
in Caderno H

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

PALMEIRA IMPERIAL



Mostras na glória um coração mesquinho...
Numa beleza esplêndida, que aterra,
Passas desencadeando um ar de guerra,
Sem deixar um perfume no caminho.

Como a palmeira, não susténs um ninho!
Não és filha, mas hóspede da Terra;
Subjugando a planície, na alta serra,
- Cruel às aves, seca de carinho.

Há no deslumbramento do teu porte
Tédio, orgulho, desdém: talvez saudade
De outra vida, ambição talvez da morte...

Como a palmeira, tens a majestade,
E dela tens a desgraçada sorte:
A avareza da sombra e da piedade.

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)


domingo, 2 de novembro de 2014

RIO GRANDE ACIMA*



Ouro, prata, cascalho, cal, barro.
O rio
e a flora Vida que acolhe e afronta.
 
Água, areia, árvores, frutas, faro.
O rio
e a fauna que há séculos alimenta.
 
Rumo País acima sobre eras além.
O rio,
seus braços, boca e veia
amazônica - no bravo dorso de Belém.
 
Avanço com o grande rio;
avisto Atlântico oceano - delta além.
 
Avanço com o grande rio,
vomito peixes, estrelas, rimas fáceis.
 
(Saúdo a bendita companhia dos botos)
 
Avanço com o grande rio,
seu visceral odor e perene casto lavor.
 
Avanço com o grande rio,
suas artérias abertas; sua cara dor.
 
Enveredo por sua atávica coreografia;
sua capilaridade que revela orgânico plano.
 
Armo redes, deito esteiras rente ao mar:
naquele espoucar de estrelas, aspiro
cometas insanos em sua trajetória sã.
 
Olhar e ver; avançar com o grande rio,
fauna e floresta afoitas, a força do Verde,
que tudo abarca - nunca é tarefa vã!
 
 
*Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

PEQUENO POEMA DE APÓS CHUVA




Frescor agradecido de capim molhado
Como alguém que chorou
E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada
alegria
Por ter a vida
continuado...

Mario Quintana
In Baú de Espantos


ORAÇÃO DA NOITE



Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores, - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude...

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!

Que o sonho deite bênçãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.

Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!... 

Cecília Meireles,
in Nunca Mais e Poemas dos Poemas




quarta-feira, 29 de outubro de 2014

IMAGEM



És como um lírio alvo e franzino,
Nascido ao pôr-do-sol, à beira d'água,
Numa paisagem erma onde cantava um sino
A de nascer inconsolável mágoa...

A vida é amarga. O amor, um pobre gozo...
Hás de amar e sofrer incompreendido,
Triste lírio franzino, inquieto, ansioso,
Frágil e dolorido...


Manuel Bandeira
In A Cinza das Horas




MICROCOSMO



Pensando e amando, em turbilhões fecundos
És tudo: oceanos, rios e florestas;
Vidas brotando em solidões funestas;
Primaveras de invernos moribundos;

A Terra; e terras de ouro em céus profundos,
Cheias de raças e cidades, estas
Em luto, aquelas em raiar de festas;
Outras almas vibrando em outros mundos;

E outras formas de línguas e de povos;
E as nebulosas, gêneses imensas,
Fervendo em sementeiras de astros novos;

E todo o cosmos em perpétuas flamas...
- Homem! és o universo, porque pensas,
E, pequenino e fraco, és Deus, porque amas!

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

MISTÉRIO




Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

RIO ABAIXO




Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao saber do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos.Curva os bambuais o vento.

Vivo há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o acaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento ...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:

E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.


Olavo Bilac
In Melhores Poemas

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

MEMÓRIA ATÁVICA



Em algum lugar
deste infinito mistério
- que é meu ser -,
a emoção primitiva
brilha
e reflete
a memória de todas as eras.


Adélia Maria Woellner






segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ATENTA AOS ENCANTOS DO JARDIM...



"Atenta aos encantos do jardim das magias, 
abandonei-me no tempo, diluí-me no espaço. 
Fiz-me roseira, só para compreender que, 
os espinhos no caule, são escada para alcançar a Flor."

Adelia Maria Woellner


domingo, 19 de outubro de 2014

FLORAL



É isso.É primavera.
estou feliz, em febre.
Outros
politizam suas dores.
Eu
me polenizo
ou polemizo
- com as flores.


Affonso Romano de Sant'Anna,
in Poesia Reunida






segunda-feira, 13 de outubro de 2014

ALONGO-ME



O rio nasce 
toda a vida. 
Dá-se 
ao mar a alma vivida. 
A água amadurecida 
a face 
ida. 
O rio sempre renasce. 
A morte é vida. 

JOÃO GUIMARÃES ROSA 
In Magma, 1936



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

RESQUÍCIO



Às vezes
a dor de chuvas passadas
cai em mim tão fina,
reelaborada,
a ponto de não ser eu
assim mais que uma bolha
na espuma da tarde
molhada.
 
Fernando Campanella






CHOVE DENTRO DA MINHA ALMA




Ouço bem a chuva que dentro da minha alma cai.
Debruço-me num tempo erguido pela nostalgia
e a chuva é mais fria.
Procuro em meu coração uma tristeza qualquer;
talvez assim encontre aquecimento
e mude o ritmo da chuva
por algum momento.
Busca em vão.
A chuva continua em compasso firme e lento
desacompanhada de vento.
Procuro em meu coração
um segundo de descanso
e talvez de exultação;
novamente recorri em vão.
Chove dentro da minha alma
o pranto das noites frias
e das inumeráveis tristezas sem razão.
 
Adalgisa Nery 


sábado, 4 de outubro de 2014

I




Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando.

Mario Quintana, 
in A rua dos catavaentos


IMAGEM




O gato é preguiçoso como uma 
segunda-feira.

Maio Quintana,
in Hora H






CANÇÃO DE OUTONO




O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!


Mario Quintana 
in Canções

VERANICO



Está marcando meio-dia nos olhos dos gatos.
As sombras esconderam-se debaixo da barriga dos cavalos.
A cidadezinha modorreia...A tarde
Avança, lentamente, como o casco coberto de poeira
Como uma tartaruga
O poema empaca, o poeta adormece
De chatice
A vida continua indiferente.

Mario Quintana,
in: Preparativos de Viagem