quarta-feira, 22 de abril de 2015

EPIGRAMA nº 5



Gosto de gota d'água que se equilibra 
na folha rasa, tremendo ao vento. 

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra: 
e ela resiste, no isolamento.
 
Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto: 
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exato. 

E a folha é um pequeno deserto 
para a imensidade do ato. 


Cecília Meireles ,
in Viagem


domingo, 19 de abril de 2015

AS SAMAMBAIAS





As samambaias
debruçadas no espaço
esplendem seu silencio.

Que farta verdade
em seu verde farfalha!


Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados






MARINHA




Gaivota

Fagulha de mar
No espaço que arde

Lâmina de água livre
em vôo e salto

Desejo alto


Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados








NOCTURNO



Devagar, devagar... A noite dorme
e é preciso acordar sem sobressalto.
Sob um manto de sombra, denso, informe,
o mar adormeceu a sonhar alto.

Devagar, devagar... O rio dorme
sobre um leito de areias e basalto...
Malhada pela neve a serra enorme
parece um tigre a preparar o salto.

E dorme o vale em flor. Dormem as casas.
Nenhum rumor. Nenhum frémito de asas.
Nada perturba a noite bela e calma.

E dormem os rosais, dormem os cravos...
Dormem abelhas sobre o mel dos favos
e dorme, na minha alma, a tua alma.


Fernanda de Castro

sábado, 18 de abril de 2015

FILHAS DO OUTONO





As folhas afogam
a foice do tronco cortado.

As folhas sabem
da face do plano amargo.

Sabem, as folhas,
das rimas torpes e pobres.

Sabem, as folhas,
das manhas, serras e dramas.

As folhas, caindo, afogam
o Tempo que engole a História!



Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"



terça-feira, 14 de abril de 2015

EXCERTO...




"Aceita,
 acolhe a minúscula astronomia de um jardim: 
os insectos com as suas múltiplas facetas 
e as delicadas antenas com que se orientam.
...
 Fascinantes, 
meticulosos ...

Uma fábula adormece ao sol das folhas: 
o jardim é um estremecimento."

António Ramos Rosa


domingo, 12 de abril de 2015

CEREJEIRA EM FLOR




Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ESTAÇÕES (OUTONO)




Azul no céu o outono;
nas folhas, vermelho
e incerto o coração.
Misturam-se as cores da música
brilhantes no piano
ocres no violoncelo
entre o sim e o não.
Tão longe as cores ficaram
nada ao alcance da mão
esquecidos os nomes, timbres de voz
somos duas a sós:
minha alma no corpo estrangeiro;
passa um vento ligeiro
(leva a minha inspiração?)
Não sei se ouves a tristeza
das pálpebras fechadas
da abandonada beleza
em sendas escondidas
onde andamos. E era vida.
Veio o pasmo e a brandura
desses lábios tão cerrados
sepultura
em seu outono calado.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário 


segunda-feira, 6 de abril de 2015

SPLEEN




Quando o cinzento céu, como pesada tampa,
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em úmida enxovia
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no teto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece
D'uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em febre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os céus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães








CHOVE, DE MANSO, NA CIDADE





Chora em meu coração
como chove lá fora.
Porque esta lassidão
me invade o coração?

Oh! ruído bom da chuva
no chão e nos telhados!
Para uma alma viúva,
oh! o canto da chuva!

E chora sem razão
meu coração amargo.
Algum desgosto? - Não!
É um pranto sem razão.

E essa é a maior dor,
não saber bem por que,
sem ódio sem amor,
eu sinto tanta dor.

Arthur Rimbaud


EM VIAGEM




Arde a montanha
- brasa de ametista –
atravessada de sol


O grande crepúsculo
é um calmo incêndio
que se espalma
na redoma da tarde


Os laranjais
- surdo perfume –
se preparam
para acolher a noite



Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados



AMANHÃ




Amanhã! — é o sol que desponta,
É a aurora de róseo fulgor,
É a pomba que passa e que estampa
Leve sombra de um lago na flor.

Amanhã! — é a folha orvalhada,
É a rola a carpir-se de dor,
É da brisa o suspiro, — é das aves
Ledo canto, — é da fonte — o frescor.

Amanhã! — são acasos da sorte;
O queixume, o prazer, o amor,
O triunfo que a vida nos doura,
Ou a morte de baço palor.

Amanhã! — é o vento que ruge,
A procela d'horrendo fragor,
É a vida no peito mirrada,
Mal soltando um alento de dor.

Amanhã! — é a folha pendida.
É a fonte sem meigo frescor,
São as aves sem canto, são bosques
Já sem folhas, e o sol sem calor.

Amanhã! — são acasos da sorte!
É a vida no seu amargor,
Amanhã! — o triunfo, ou a morte;
Amanhã! — o prazer, ou a dor!

Amanhã! — o que val', se hoje existes!
Folga e ri de prazer e de amor;
Hoje o dia nos cabe e nos toca,
De amanhã Deus somente é Senhor!

Gonçalves Dias


CREPUSCULAR





Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...

Raul de Leoni



quarta-feira, 1 de abril de 2015

ESTAÇÕES




Aprendi os cheiros
Do alecrim e da hera
E ao azul do céu
Chamei Primavera.


Encontrei um fruto
Na concha da mão
E à sede da água
Dei um nome: Verão.


Descobri o sol com olhos de sono,
À tristeza das folhas dei o nome de Outono
Aprendi os modos do bico mais terno:
Um cão de peluche
Com o frio do Inverno.


Juntei as estações
Com pés de magia
E à soma das quatro
Chamei poesia.


José Jorge Letria

sábado, 28 de março de 2015

ARAUCÁRIA





Nasci forte e altiva,
Solitária.
Ascendo em linha reta
- Uma coluna verde-escura
No verde cambiante da campina.
Estendo braços hirtos e serenos


Não há na minha fronte
Nem veludos quentes de folhas
Nem risos vermelhos de flores,
Nem vinhos estoantes de perfumes.
Só há o odor agreste da resina
E o sabor primitivo dos frutos.


Espalmo a taça verde no infinito.
Embalo o sono dos ninhos
Ocultos em meus espinhos,
Na silente nudez do meu isolamento


Helena Kolody



POEMA DA ÁRVORE





As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.


António Gedeão
in: Obra Poética,



sexta-feira, 27 de março de 2015

CANTIGA OUTONAL





Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...



Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas


terça-feira, 24 de março de 2015

ANGÚSTIA



O sol se foi embora e a lagoa esquecida
se voltou para dentro de si mesma.


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964

segunda-feira, 23 de março de 2015

VERSO AVULSO




Senhor! Que buscas Tu pescar com a rede
das estrelas?

Mario Quintana,
in 80 anos de Poesia



CANÇÃO




Cheguei a concha da orelha
à concha do caracol.

Escutei
vozes amadas
que eu julgava
eternamente perdidas.

Uma havia
que dentre as outras mais graves
tão clara e alta se erguia...

Que eu custei mas descobri
que era a minha própria voz:
sessenta anos havia
ou mais
que ali estava encerrada.

Meu Deus, as coisas que ele dizia!
as coisas que perguntava!

Eu deixei-as sem resposta.

Mario Quintana,
in 80 anos de Poesia






ESTE E O OUTRO LADO




Tenho uma grande curiosidade do Outro Lado.
(Que haverá do Outro Lado, meu Deus?)
Mas também não tenho muita pressa...
Porque neste nosso mundo há belas panteras, nuvens, mulheres belas,
Árvores de um verde assustadoramente ecológico!
E lá - onde tudo recomeça -
Talvez não chova nunca,
Para a gente poder ficar em casa
Com saudades daqui...

Mario Quintana,
in Velório sem defunto -1990


CANÇÃO AZUL



Triste, Poeta, triste a florinha azul que sem querer
Pisaste no teu caminho. . .
Miosótis, - disseste, inclinado um instante sobre ela.
E ela acabou de morrer, aos poucos, dentre a relva úmida.
Sem nunca ter sabido que se chamava miosótis.
Nem que iria impregnar, com o seu triste encanto,
O teu poema daquele dia. . .


Mário Quintana
In: Canções


A CANÇÃO DO MAR




Esse embalo das ondas
Das ondas do mar
Não é um embalo
Para te ninar...

O mar é embalado
Pelos afogados!

O canto do vento
Do vento no mar
Não é um canto
Para te ninar...

São eles que tentam
Que tentam falar!

Tiveram um nome
Tiveram um corpo
Agora são vozes
Do fundo do mar...

Um dia viremos 
Vestidos de algas

Os olhos mais verdes
Que as ondas amargas

Um dia viremos
Com barcos e remos

Um dia...

Dorme, filhinha...
São vozes, são vento, são nada...


Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo




INFÂNCIA



é quando as portas são fechadas
e abertas ao mesmo tempo,
é quando estamos metade na luz
e a outra metade na escuridão,
é quando o mundo real chama
e preferimos outro...

Mario Quintana
in Esconderijos do Tempo


VIDA




Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de olhar um momento.

Ah! se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum
de imagens:
aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,

perdida,
Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!


Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo







NATUREZA VIVA





Há trovões arrastando pesados móveis, enormes 
cômodos pelo céu. Há outros que trabalhar não é
com eles e ficam resmungando, num desvão .Por 
fim atracam-se. As lâmpadas, lá alto, queimam-se 
em sucessivos relâmpados .Até que tudo vasa e
se extravasa sobre o desespero dos guarda-chuvas
em fuga e a verde alegria das árvores.

Mario Quintana
In Porta Giratória



OS NOMES



Como não lhes interessa o que parece inútil, 
os campônios não dão importância às flores do campo.
É o que parece. Mas a gente fica a perguntar-se
como é que essas flores silvestres conseguiram
então ter nomes populares: margaridas,
amores-perfeitos, coisas assim!


Mario Quintana, 
in Porta Giratória

domingo, 22 de março de 2015

CONTEMPLAÇÃO




Não acuso. Nem perdôo.
Nada sei. De nada.
Contemplo.

Quando os homens apareceram
eu não estava presente.
Eu não estava presente,

quando a terra se desprendeu do sol.
Eu não estava presente,
quando o sol apareceu no céu.
E antes de haver o céu,
EU NÃO ESTAVA PRESENTE.

Como hei de acusar ou perdoar?
Nada sei.
Contemplo
.
Parece que às vezes me falam.
Mas também não tenho certeza.
Quem me deseja ouvir, nestas paragens
onde somos todos estrangeiros?
Também não sei com segurança, muitas vezes,
da oferta que vai comigo, e em que resulta,
pois o mundo é mágico!
Tocou-se o Lírio e apareceu um Cavalo Selvagem.
E um anel no dedo pode fazer desabar da lua um temporal.

Já vês que me enterneço e me assusto,
entre as secretas maravilhas.
E não posso medir todos os ângulos do meu gesto.

Noites e noites, estudei devotamente
nossos mitos, e sua geometria.

Por mais que me procure, antes de tudo ser feito,
eu era amor. Só isso encontro.
Caminho, navego, vôo,
- sempre amor.
Rio desviado, seta exilada, onda soprada ao contrário,
- mas sempre o mesmo resultado: direção e êxtase.
À beira dos teus olhos,
por acaso detendo-me,
que acontecimentos serão produzidos
em mim e em ti?

Não há resposta.
Sabem-se os nascimentos 
quando já foram sofridos.

Tão pouco somos, - e tanto causamos,
com tão longos ecos!
Nossas viagens têm cargas ocultas, de desconhecidos vínculos.

Entre o desejo do itinerário, uma lei que nos leva
age invisível e abriga 
mais que o itinerário e o desejo.

Que te direi, se me interrogas?
As nuvens falam?
Não. As nuvens tocam-se, passam, desmancham-se.
Às vezes, pensa-se que demoram, parece que estão paradas...
Confundiram-se.

E até se julga que dentro delas andam estrelas e planetas.
Oh, aparência...Pode talvez andar um tonto pássaro perdido.
Voz sem pouso, no tempo surdo.

Não acuso nem perdôo.
Que faremos, errantes entre as invenções dos deuses?

Eu não estava presente, quando formaram 
a voz tão frágil dos pássaros.

Quando as nuvens começaram a existir,
qual de nós estava presente?


Cecília Meireles
In: Mar Absoluto








PROVÍNCIA




Cidadezinha perdida
no inverno denso de bruma,
que é de teus morros de sombra,
do teu mar de branda espuma,

das tuas árvores frias
subindo das ruas mortas?
Que é das palmas que bateram
na noite das tuas portas?

Pela janela baixinha,
viam-se os círios acesos,
e as flores se desfolhavam
perto dos soluços presos.

Pela curva dos caminhos,
cheirava a capim e a orvalho
e muito longe as harmônicas
riam, depois do trabalho.

Que é feito da tua praça,
onde a morena sorria
com tanta noite nos olhos
e, na boca, tanto dia?

Que é feito daquelas caras
escondendo o seu segredo?
Dos corredores escuros
com paredes só de medo?

Que é feito da minha vida?
abandonada na tua,
do instante de pensamento
deixado nalguma rua?

Do perfume que me deste,
que nutriu minha existência
e hoje é um tempo de saudade,
sobre a minha própria ausência?

Cecília Meireles,
in Viagem




À HORA EM QUE OS CISNES CANTAM





Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono...
Benevolência. Inconsequência. Inexistência.

Paz dos que não têm fé, nem carinho, nem dono...
Todo o perdão divino e a divina clemência!
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono...
Esmola que faz bem... - nem gestos, nem violência...

Nem palavras.Nem choro. A mudez. Pensativas
abstrações. Vão temor de saber. Lento, lento
volver de olhos, em torno, augurais e espectrais...

Todas as negações. Todas as negativas.
Ódio? Amor? Ele? Tu? Sim? Não? Riso? Lamento?
- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca mais...

Cecília Meireles
In 'Nunca Mais e Poema dos Poemas'1923


PAZ





Caminhemos até as árvores... o sonho
Se fará em nós por virtude celeste.
Caminhemos até as árvores; a noite
Nos será branda, a tristeza leve.

Caminhemos até ás árvores, a alma
Adormecida de perfume agreste.
Cala-te, porém, sê piedoso, não fales;
Não despertes os pássaros que dormem. 


Alfonsina Storni
(Livre tradução de Fernando Campanella)




EXCERTO LITERÁRIO



"Hoje 
estou muito delicada, 
me interessam principalmente, 
flores e passarinhos." 
.
Clarice Lispector





quinta-feira, 19 de março de 2015

MANOEL DE BARROS

Foto by Nilce Kaletka

"As imagens são palavras que nos faltaram." 

Manoel de Barros

terça-feira, 17 de março de 2015

BERTRAND RUSSEL




"O mundo é cheio de coisas mágicas
 pacientemente esperando que nossa
 percepção fique mais aguçada."

  Bertrand Russel

sexta-feira, 13 de março de 2015

15


Foto by Jussara Maria Saade Teixeira

Toda uma eternidade se escoou
antes que estas rosas abrissem.
E toda uma eternidade se escoará
depois que elas fenecerem de todo.
Mas no seu fugitivo instante
de milagre e esplendor

elas são um lampejo
de beleza infinita



Tasso da Silveira,
in Canções à Curitiba



GIRASSOL...





Girassol quando abre flor, geralmente despenca.
 O talo é frágil demais para a própria flor,
 compreende? Como se não suportasse a beleza que
 ele mesmo engendrou.

— CAIO FERNANDO ABREU

terça-feira, 10 de março de 2015

APOTEOSE




No horizonte profundo
mãos invisíveis suspenderam
a cortina sem fim das trevas mortas...

e cem lâmpadas claras se acenderam!

...e a luz radiosa entrou pelas cem
portas do Palácio do Mundo...


Tasso da Silveira,
in Canções à Curitiba
& outros poemas

terça-feira, 3 de março de 2015

NAS CLARAS TARDES DE VERÃO...




Nas claras tardes de verão
em que as arvores tem uma nitidez de desenho à pena
há um silêncio de expectativa
como se uma pedra tivesse parado no ar
ou uma fonte deixasse de correr,
nas claras tardes de verão.

..................................
Apenas as rosas vermelhas
continuam sendo
umas simples rosas vermelhas

Isabel Meyrelles
In ‘Palavras Noturnas e Outros Poemas’



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

VELHICE



 
Uma folha morta.
Um galho, no céu grisalho.
Fecho a minha porta.

Guilherme de Almeida


INFÂNCIA



                 
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se agora.


Guilherme de Almeida



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

VIOLETA





Sempre teu lábio severo
Me chama de borboleta!
- Se eu deixo as rosas do prado
É só por ti - violeta!

Tu és formosa e modesta,
As outras são tão vaidosas!
Embora vivas na sombra
Amo-te mais do que às rosas.

A borboleta travessa
Vive de sol e de flores.
- Eu quero o sol de teus olhos,
O néctar dos teus amores!

Cativo de teu perfume
Não mais serei borboleta;
- Deixa eu dormir no teu seio,
Dá-me o teu mel - violeta



Casimiro de Abreu
 
 

O GATO TRANQUILO




Ei-lo, quieto, a cismar, como em grave sigilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos,
onça que não cresceu, hoje é um gato tranqüilo.
A sua vida é um "manso lago", sem escolhos...

Não ama a lua, nem telhado a velho estilo.
De uma rica almofada entre os suaves refolhos,
prefere ronronar, em gracioso cochilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos.

Poderia ser mau, fosforescente espanto,
pequenino terror dos pássaros; no entanto,
se fez um professor de silêncio e virtude.

Gato que sonha assim, se algum dia o entenderdes,
vereis quanto é feliz uma alma que se ilude,
e olha a vida através a cor de uns olhos verdes.


Cassiano Ricardo


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

AS ROSAS




(XVI)

Não falemos de ti. É inefável 
segundo a tua natureza. 
Outras flores ornamentam a mesa: 
tu a transfiguras.

Num simples vaso és arranjo, 
e eis que tudo muda: 
é talvez a mesma frase, 
mas cantada por um anjo.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

DO AZUL, NUM SONETO




Verificar o azul nem sempre é puro.
Melhor será revê-lo entre as ramadas
e os altos frutos de um pomar escuro
- azul de tênues bocas desoladas.

Melhor será sonhá-lo em madrugadas,
fresco inconstante azul sempre imaturo,
azul de claridades sufocadas
latejando nas pedras - nascituro.

Não este azul, mas outro e dolorido,
evanescente azul que na orvalhada
ficou, pétala ingênua, torturada.

Recupero-o, sem ter, e ei-lo perdido,
azul de voz, de sombra envenenada,
que em nós se esvai sem nunca ter vivido.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do tempo
 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

NUVENS (I)




Não há uma só coisa que não seja
nuvem. Assim são essas catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisa. A Odisséia, veja,
muda como o mar; há algo distinto
a cada vez que a abrimos. Seu velho
rosto já é outro, visto no espelho,
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A volumosa
nuvem que se desmancha no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
Você é nuvem, mar, esquecimento.
E é o que perdeu a cada momento.

Jorge Luis Borges
(Tradução : Marcelo Tápia)

HIBISCOS




Há flores que se comem
como se fossem frutas,
numa comunhão entre
os olhos, a boca e o jardim.
Hibiscos coloridos, caprichosos,
derramam no prato a sua beleza,
passageira como um relâmpago,
e ao morder um hibisco
nos transformamos em poesia.


Roseana Murray
in Abecedário (Poético) de Frutas,







domingo, 1 de fevereiro de 2015

EXCERTO LITERÁRIO.




"Se me pedissem para sugerir um símbolo gráfico para
 a idéia de Tempo, eu indicaria sem hesitação a imagem
 duma oliveira. Por quê? Talvez por  causa de suas
 conotações bíblicas, pelo aspecto sofrido de seus troncos
 e galhos e por tudo quanto o óleo que o fruto dessa 
 árvore produz tem a ver com a vida e a morte: o óleo do
 batismo, o óleo da extrema-unção, enfim, o óleo que
 mantém acesas as lâmpadas, não só a dos templos,
 mas todas as lâmpadas do mundo que iluminam a noite
 dos homens."


- Erico Verissimo, 
em Solo de Clarineta, 1975


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

'XXXV'




Aquele pássaro ronda de novo
a minha janela,
Há tempos que eu não o ouvia.
Seu canto dias já idos me lembra,
Algo como “eu era infeliz
Mas tinha junto de mim a alegria”.

Vai dormir, sonoro amigo,
Já é da noite
a quase sombra que nos fecha.
Vai e se possível
ao Sol de meus dias retorna
(Eu que nunca fui tão feliz
Te confesso:
Agora tenho um anjo triste
A minha volta .)

F.Campanella
Poema da série 'O EU Confesso'

FORAM EMBORA OS PÁSSAROS




Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos meus ombros,
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

EU TE BAPTIZO EM NOME DO MAR




Eu te baptizo em nome do mar,
disse minha mãe com barcos na voz.
E as ondas enlearam nas águas o meu nome,
abrindo nas fendas do corpo um impulso
salgado que me brandiu o sangue.
Sei agora que há âncoras afogadas
nos meus olhos: nítido eco de todas as demandas.


Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014