sexta-feira, 8 de maio de 2015

OS PÁSSAROS NASCEM NA PONTA DAS ÁRVORES...


Fotografia Nelci Kaletka

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam
movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao
reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração


Ruy Belo,
in "Todos os Poemas"




terça-feira, 5 de maio de 2015

AO VENTO DE OUTONO




Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volta ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de um vez a casca
do fruto que não madura.


Joan Vinyoli
(1914-1984)
Tradução de João Cabral de Melo Neto.



domingo, 3 de maio de 2015

OS CARNEIRINHOS




Todos querem ser pastores,
Quando encontram, de manhã,
Os carneirinhos,
Enroladinhos
Como carretéis de lãs.

Todos querem ser pastores
E ter coroas de flores
E um cajadinho na mão
E tocar uma flautinha
E soprar numa palhinha
Qualquer canção.

Todos querem ser cantores
Quando a estrela da manhã
Brilha só, no céu sombrio,
Vão descendo os carneirinhos
Como carretéis de lãs...


Cecília Meireles,
in Ou isto ou aquilo.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

MOA COUTO



Olhei o poente e vi as aves carregando o sol,
empurrando o dia para outros aléns.

MIA COUTO
in "O último voo do flamingo" 

SE O TEMPO...





Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Albano Martins,
in Antologia Poética

terça-feira, 28 de abril de 2015

PAISAGEM DE APÓS-CHUVA


Arte de Graham Gercken


A relva, os cavalos, as reses, as folhas,
tudo envernizadinho como no dia inolvidável
da inauguração do paraíso...

Mario Quintana,
in Sapato Florido





A ESTRELA





Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


Manuel Bandeira,
in  Estrela da vida inteira


segunda-feira, 27 de abril de 2015

DA REALIDADE


Arte de Egidio Antonaccio 


Que renda fez a tarde no jardim,
Que há cedros que parecem de enxoval?
Como é difícil ver o natural
Quando a hora não quer!
Ah! Não digas que não ao que os teus olhos
Colham nos dias de irrealidade.
Tudo então é verdade,
Toda a rama parece
Um tecido que tece
A eternidade.

Miguel Torga
In: Antologia Poética

ÉRICO VERÍSSIMO


Arte Egidio Antonaccio


"Que bom se pudesse ficar no campo,
 à beira da estrada, encostar as faces na
 frescura do capim molhado, dormir, esquecer,
 ser apenas uma pedra no caminho,
 a folha duma árvore... "


Érico Veríssimo,
in Olhai os Lírios do Campo

sábado, 25 de abril de 2015

POEMA 16


Arte de Leonid Afremov


Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina.

Tece-a com desenhos
de amigos que falam,
de ruas que voam,
de amor que se inclina,

de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme, deplora
com palavras mudas
e não raciocina...

Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina

dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa 
e a noite combina.


Cecília Meireles
In Metal Rosicler






JARDIM INTERIOR


Arte de Thomas Kinkade


Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mário Quintana,
in A Cor do Invisível, 1989


quinta-feira, 23 de abril de 2015

NATUREZA HUMANA




Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir embora
E a tremenda vontade de ficar.


Vinícius de Moraes
In Jardim Noturno

quarta-feira, 22 de abril de 2015

EPIGRAMA nº 5



Gosto de gota d'água que se equilibra 
na folha rasa, tremendo ao vento. 

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra: 
e ela resiste, no isolamento.
 
Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto: 
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exato. 

E a folha é um pequeno deserto 
para a imensidade do ato. 


Cecília Meireles ,
in Viagem


domingo, 19 de abril de 2015

AS SAMAMBAIAS





As samambaias
debruçadas no espaço
esplendem seu silencio.

Que farta verdade
em seu verde farfalha!


Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados






MARINHA




Gaivota

Fagulha de mar
No espaço que arde

Lâmina de água livre
em vôo e salto

Desejo alto


Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados








NOCTURNO



Devagar, devagar... A noite dorme
e é preciso acordar sem sobressalto.
Sob um manto de sombra, denso, informe,
o mar adormeceu a sonhar alto.

Devagar, devagar... O rio dorme
sobre um leito de areias e basalto...
Malhada pela neve a serra enorme
parece um tigre a preparar o salto.

E dorme o vale em flor. Dormem as casas.
Nenhum rumor. Nenhum frémito de asas.
Nada perturba a noite bela e calma.

E dormem os rosais, dormem os cravos...
Dormem abelhas sobre o mel dos favos
e dorme, na minha alma, a tua alma.


Fernanda de Castro

sábado, 18 de abril de 2015

FILHAS DO OUTONO





As folhas afogam
a foice do tronco cortado.

As folhas sabem
da face do plano amargo.

Sabem, as folhas,
das rimas torpes e pobres.

Sabem, as folhas,
das manhas, serras e dramas.

As folhas, caindo, afogam
o Tempo que engole a História!



Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"



terça-feira, 14 de abril de 2015

EXCERTO...




"Aceita,
 acolhe a minúscula astronomia de um jardim: 
os insectos com as suas múltiplas facetas 
e as delicadas antenas com que se orientam.
...
 Fascinantes, 
meticulosos ...

Uma fábula adormece ao sol das folhas: 
o jardim é um estremecimento."

António Ramos Rosa


domingo, 12 de abril de 2015

CEREJEIRA EM FLOR




Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ESTAÇÕES (OUTONO)




Azul no céu o outono;
nas folhas, vermelho
e incerto o coração.
Misturam-se as cores da música
brilhantes no piano
ocres no violoncelo
entre o sim e o não.
Tão longe as cores ficaram
nada ao alcance da mão
esquecidos os nomes, timbres de voz
somos duas a sós:
minha alma no corpo estrangeiro;
passa um vento ligeiro
(leva a minha inspiração?)
Não sei se ouves a tristeza
das pálpebras fechadas
da abandonada beleza
em sendas escondidas
onde andamos. E era vida.
Veio o pasmo e a brandura
desses lábios tão cerrados
sepultura
em seu outono calado.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário