quinta-feira, 4 de junho de 2015

PAUSA



Uma estrela, tão bela! É a margarida 
na cerca eflorescente, e os jardins, 
e o segredo do início, e a dor dos fins,
e a vida, e a vida, sobretudo a vida ...
E a vertigem do som, despenhadeiro
onde aladas manhãs mal se projetam 
e as vagas tardes espraiam-se e inquietam 
a alma, e vem de tudo um espinheiro 
e ao mesmo tempo a paz indefinível 
que cai sobre o silêncio do ser triste 
e o que acaso existe ou não existe 
como um ardor de brasa inconsumível, 
e a esperança mais alta e de tal sorte 
perseguida, e o sol cálido e a luz serena 
da noite, e a estranha paz que longe acena ...

Alphonsus de Guimaraens Filho

terça-feira, 2 de junho de 2015

HAICAI




O vento outonal
tece um tapete folhado
ao longo da rua.

Delores Pires,
em O Livro dos Haicais




AVE




ave
incrustada no espaço
ponto azul
isolada
(pedra
em parábola
no poema
espaço-tempo)
projeta
a fuga
no ângulo
de um voo
crê
demasiado em seu
escudo plumagem
ignora
quem seja
esboço apenas

Ricardo Augusto dos Anjos
De ‘Após a tragédia’

domingo, 31 de maio de 2015

SIMPLICIDADE



Queria, queria 
Ter a singeleza 
Das vidas sem alma 
E a lúcida calma 
Da matéria presa. 

Queria, queria 
Ser igual ao peixe 
Que livre nas águas 
Se mexe; 

Ser igual em som, 
Ser igual em graça 
Ao pássaro leve, 
Que esvoaça... 

Tudo isso eu queria! 
(Ser fraco é ser forte). 
Queria viver 
E depois morrer 
Sem nunca aprender 
A gostar da morte. 



Pedro Homem de Melo (1904-1984),
 in "Estrela Morta"

sexta-feira, 29 de maio de 2015

DEPOIS DO FIM




A minha vida ,agora, é tão outono
Como é a luz do sol quando se põe...
Ventura que se chama e não responde,
A dar a sensação de abandono...

Nas malhas dessa rede que é o sonho
Nos sonhos que são feitos de raízes.
Do tempo em que vivi dias felizes,
É só, quando não sinto este abandono...

.Não tenho fé em nada, nem em mim!
Nem é o medo do "depois do fim",
Que me faz faz continuar por estes trilhos...

.A força. porque vivo, mesmo assim,
Não é coragem ou pena de mim... 
É por ser mulher, mãe de meus filhos...
.

Nidia Horta,
em BAILANDO O CAMINHO...
ENCONTREI UMA ROSA..

quinta-feira, 28 de maio de 2015

NÃO ME DEIXES!



Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
'Ai, não me deixes, não!'

'Comigo fica ou leva-me contigo
Dos mares à amplidão;
Límpido ou turvo, te amarei constante;
Mas não me deixes, não!'

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
'Ai, não me deixes, não!'

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
'Ai, não me deixes, não!'

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
'Não me deixaste, não!'.”

Antônio Gonçalves Dias,
de "Nossos Clássicos"

segunda-feira, 25 de maio de 2015

PRIMEIRO PÁSSARO




Chega e canta.
Canta e escuta:
Para e escuta:
com os ouvidos, com os olhos, com as penas.

O silencio da manhã é um longo muro, ainda,
entre este mundo e o céu.

Escuta e canta.
Canta e para.
Para e parte.

Devia ser a primavera.
Mas não houve resposta.

Na solidão se perde o inquieto canto prematuro.
Perde-se no silencio o antecipado pássaro.
talvez triste.  



Cecília Meireles
In: Poemas Italianos 

sábado, 23 de maio de 2015

EM ALGUMA VIDA FUI AVE




Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.

Em alguma ave fui vida.

Mia Couto,
in  Lembrança Alada

ROSA




Vim pela escada de espinhos.
(Mais durável esse esforço que o esplendor.)

Depois de ascensão tão longa,
qualquer vento, qualquer chuva
converte-me em queda e pó.

Quando se vê a coroa
que eu trazia, já não sou.

Entre espinhos e derrotas,
qual é meu tempo de flor?


Cecília Meireles
Dispersos -1960-

sexta-feira, 22 de maio de 2015

CITAÇÃO




“E foi assim: 
Desde a hora que abriu os olhos, 
teve certeza: 
Hoje, seria um dia mágico”.
 
Caio Fernando Abreu (1948-1996)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

AMOR PERFEITO




Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
vê-se a luz do jardim suspensa.

Tão fina foi a vida sua,
tão fina é a morte em que descansa!
Mais transparente do que a lua,
mais do que as borboletas mansa!
Tanto o seu perfil atenua
que, em peso, é menos que a lembrança.

Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a sua vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.

Se o levantar entre meus dedos,
pólen de tardes e sorrisos
cairá com tímidos segredos
de tempos certos e imprecisos.
Ó cinco pétalas, ó enredos
de sentimentais paraísos!

Mas de leve gota pousada
no veludo, - mole diamante
que foi a resposta da amada,
que foi a pergunta do amante –
dela não se verá mais nada:
perdeu-se no vento inconstante.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

segunda-feira, 18 de maio de 2015

XII


Arte digital de Satoshi Matsuyama


Olhar a realidade face a face!
viver! (mas como se a gente sonhasse...)

Onestaldo de Pennafort,
in Poesia





domingo, 17 de maio de 2015

DEUS DANÇA





Seus curvos pés em movimento
eram luas crescentes de ouro
sobre nuvens correndo ao vento.

Como no jogos malabares,
ele atirava o seu tesouro
e apanhava-o com a mão nos ares...

Era o seu tesouro de estrelas,
de planetas, de mundos, de almas...
Ele atirava-o rindo pelas

Imensidões sem horizontes:
tinha todo o espaço nas palmas
e o zodíaco em torno a fronte.

Eu o vi dançando, ardente e mudo,
a dança cósmica do Encanto.
Unicamente abismo – tudo

quanto no seu cenário existe!
Que vale o que valia tanto?
Eu o vi dançando e fiquei triste...


Cecília Meireles
In: ‘Vaga Música’

sábado, 16 de maio de 2015

SORTE



Caem pétalas de som
do bem-te-vi meu vizinho:
bem-te-escuto, mal-te-vejo,
bem-te-quero passarinho.

Edival Perrini,
 IN O olho das águas/ 2009

FLOR AMARELA




Atrás daquela montanha
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.

Porém, se atrás daquela 
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.


Ivan Junqueira,
in  Poesia reunida

sexta-feira, 15 de maio de 2015

NINFÉIAS




Eu vou aonde as nuvens
de impossíveis tons se embriagam,
eu nado onde aquáticos leques
se irisam em sonhos
e por arte do encanto se dissolvem.

Eu furto cores,
clico roxos que se miram
em espelhos que me expandem.

Bebo a luz, traço a alma,
eu sou o impressionista ambulante.

Então nem me perguntes
por quais cambiantes geografias me espalho:
meus olhos são câmeras mimadas
meus pincéis são artífices do instante.

Fernando Campanella


quinta-feira, 14 de maio de 2015

OS RIOS




Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente,

Desejais regressar... Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança...
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade...

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)


quarta-feira, 13 de maio de 2015

CITAÇÃO




“Na natureza, a soberania pertence às forças silenciosas.
 A lua não faz o menor ruído e, não obstante, arrasta
 milhões de toneladas de água do mar no vaivém obediente
 ao seu comando; não ouvimos o sol se levantar, nem as
 estrelas se ocultarem. Assim, a aurora da nova vida
 surge silenciosamente no homem, sem que nada a anuncie
 ao mundo”.

Paul Brunton (1898-1981)


terça-feira, 12 de maio de 2015

2



 
Na noite transfigurada só ficaram os cedros e os
ciprestes.
A lua surgiu, mas como, na lembrança, um rosto
antigo explende palidamente e depois
se apagou.
O vento veio, mas como um pássaro branco de
grandes asas fatigadas: esvoaçou, lento
entre as frondes, pousou no chão e
adormeceu.
Os outros seres perderam-se no caminho dos
milênios.
Ficaram apenas os cedros e os ciprestes e, na altura,
as estrelas.
E para além dos ciprestes e cedros há só deserto e
esquecimento.
 
 
 
Tasso da Silveira
in Solilóquio.

sábado, 9 de maio de 2015

GAIVOTAS




Não sei onde as gaivotas fazem ninho,
onde encontram a paz.
Sou como elas,
em perpétuo voo.
Raso a vida
como elas rasam a água
em busca de alimento.
E amo, talvez como elas, o sossego,
o grande sossego marinho,
mas o meu destino é viver
faiscando na tempestade.


Vincenzo Cardarelli
(1887-1959)
Tradução: Albano Martins