segunda-feira, 25 de julho de 2016

GATOS NÃO MORREM DE VERDADE




Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

Nelson Ascher,
in Parte alguma, 2005



segunda-feira, 25 de abril de 2016

CASA DE PÁSSARO




casa de pássaro
é pendurada no azul
casa sonora
de cantos e ventos

Roseana Murray,
in "Falando de Pássaros e Gatos"


sexta-feira, 22 de abril de 2016

OS CISNES SELVAGENS DE COOLE





Em sua outonal beleza estão as árvores,
Secas as veredas do bosque;
No crepúsculo de Outubro as águas
Reflectem um céu tranquilo;
Nessas transbordantes águas sobre as pedras
Banham-se cinquenta e nove cisnes.


Dezanove outonos se passaram desde que
Os contei pela primeira vez;
E, enquanto o fazia, vi
Que de repente todos se erguiam
E em largos círculos quebrados revolteavam
As clamorosas asas.


Contemplei esses seres resplandecentes 
E agora há uma ferida no meu coração, 
Tudo mudou desde o dia em que ouvindo ao crepúsculo,
Pela primeira vez nesta costa, 
A alta música dessas asas sobre a minha cabeça 
Com mais ligeiro passo caminhei.


Infatigáveis, amante com amante,
Movem-se nas frias
E fraternas correntes ou elevam-se nos ares;
Os seus corações não envelheceram;
Paixão ou conquista solicitam ainda
Seu incerto viajar.

Vagueiam agora pelas quietas águas, 
Misteriosos, belos;
Entre que juncos edificarão sua morada, 
Junto a que lago, junto a que charco, 
Deliciarão o olhar do homem quando um dia eu despertar 
E descobrir que voando se foram?



Willian Butler Yeats
 Poemas
selecção e tradução de José Agostinho Baptista, 1988

terça-feira, 5 de abril de 2016

O MILAGRE DA VIDA




"À escala do cosmo, a espécie humana,
 surgida por um acaso infinitesimal,
 durará um breve momento. E dentro dele
 cada um de nós não chega quase a existir
 E no entanto, é por esse instante de 
impensável brevidade de duração, que é o
 nosso dever mobilizar todo o esforço de
 uma intensa atenção para que o melhor
 do universo não se destrua. Porque 
nesse mínimo está o máximo concebível 
da grandeza e do milagre. A vida.
Tão pouco e tão tanto."

Vergílio Ferreira, 
 in "Espaço do Invisível 5"

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

PERPLEXIDADE




Perdemos a cor
dos últimos sonhos.
Qual imenso rio
marchamos, incautos, para um longo vazio.
No incerto amanhã 
toda a vida
é vã.

Homem 
-Guardião da ultima esperança –
que fizeste de tua
imagem e semelhança?


Artur Eduardo Benevides,
in Elegia Setentã e
 Outros Poemas de Entardecer





sábado, 19 de setembro de 2015

EVOCAÇÃO




Quando nasce amanhã cheia de graça
E a beleza da mata se irradia
Com o cantar da passarada
Surgem tênues raios de luz.
E o sol, ao longe, desponta.
É a alvorada que surge,
O doce e alegre amanhecer!


Olympiades Guimarães Corrêa
Em Neblina do Tempo-1.996

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

CALARAM-SE OS PÁSSAROS




Calaram-se os pássaros.
Regressou enferma
a ave que rasgou a sombra
das árvores em pleno verão
sem encontrar o caminho para a chuva. 

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A NUVEM





Nuvem errante, peregrino vaso
que flutuas no espaço eternamente,
ora dourado pelo sol no ocaso,
ora fendido pelo sol nascente.
Essas formas fantásticas que assumes,
batida pela luz e pelos ventos,
nuvem feita de orvalho e de perfumes,
são imagem dos nossos pensamentos.
Amor ou ilusão que vais levando,
no seio onde germinam primaveras,
detém-te nuvem, deixa-me, sonhando,
nutrir-me na visão destas quimeras.

Augusto de Lima
in Coletânea de Poesias


sexta-feira, 31 de julho de 2015

DESCRIÇÃO





Há uma água clara que cai sobre pedras escuras
e que, só pelo som, deixa ver como é fria.

Há uma noite por onde passam grandes estrelas puras.
Há um pensamento esperando que se forme uma alegria.

Há um gesto acorrentado e uma voz sem coragem,
e um amor que não sabe onde é que anda o seu dia.

E a água cai, refletindo estrelas, céu, folhagem...
Cai para sempre!

E duas mãos nela mergulham com tristeza,
deixando um esplendor sobre a sua passagem.

(Porque existe um esplendor e uma inútil beleza
nessas mãos que desenham dentro da água sua viagem
para fora da natureza,

onde não chegará nunca esta água imprecisa,
que nasce e desliza, que nasce e desliza...)



Cecília Meireles
In 'Viagem'

sábado, 11 de julho de 2015

FLOR PEQUENINA




Flor pequenina,
Aberta no meio do lindo canteiro,
Porque será
Que, sendo tu tão pequenina,
Foi a ti que vi primeiro?
À tua volta,
Flores maiores,
Mais belas, talvez e perfumadas,
Quase te escondem ...
Tímida,
Como que te encolhes no meio delas;
E contudo,
Foi a ti que vi primeiro:
Só por seres pequenina, decerto!
Flor pequenina do meu jardim:
Deixa-me ser, como tu,
Pequenino!

Joaquim do Carmo
De: Amanhecer pelo Fim da Tarde

quinta-feira, 2 de julho de 2015

FADOS CONTRÁRIOS



Fotografia de Nelci Kaletka


Diz à flor a borboleta:
‘Vamos, irmã, tudo é luz!
Há muito prisma doirado
Que pelos ares transluz…

Tuas pétalas são asas,
Das nuvens nas tênues gazas,
D’aurora nos seios nus
Tens um ninho entre perfumes…

Vamos boiar, entre os lumes
Desses páramos azuis’.
À linda fada dos ares
Responde a silvestre flor:

‘Eu amo o gemer das auras
E o beijo do beija-flor…
Se és do céu a violeta,
Sou da terra a borboleta...

Sigo um destino menor.
Buscas o céu – eu a alfombra,
Queres a luz – eu quero a sombra,
Pedes glória – eu peço amor’...”

*Castro Alves*
Em “Poesias Completas”, 

terça-feira, 30 de junho de 2015

AS ROSAS





Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;

Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.

Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas que sois então? – Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.

Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.

Machado de Assis,
in 'Crisálidas'

DIAS PERDIDOS



"Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pássaro morto.

Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.

Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.

Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas."


Fernanda de Castro,
In Urgente

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O TEATRO DAS CIDADES


Arte de Eduard Gordeev

Qualquer tempo é um tempo duvidoso 
assim o meu cercado de cidades 
plataformas instáveis 
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga 
que se inclina nas águas como um palco
Paro na convergência dos estrados 
chove já sobre a raça ameaçada 
Incertas multidões em volta passam 
contemporâneas falam interpretam 
a duvidosa língua das imagens
Assim no teatro abstracto das cidades 
morrem palavras sobre um palco náufrago
O tempo cobre o céu que se enche de água

Gastão Cruz 
in O Pianista



segunda-feira, 8 de junho de 2015

CREPÚSCULO DE OUTONO




O crepúsculo cai, manso como uma benção. 
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito… 
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam 
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços. 
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar 
O terror augural de encantos e feitiços. 
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

Os pinheiros porém viçam, e serão breve 
Todo o verde que a vista espairecendo vejas, 
Mais negros sobre a alvura unânime da neve, 
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio 
Do rio, e isso parece a voz da solidão. 
E essa voz enche o vale…o horizonte purpúreo… 
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha 
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos, 
Flocos, que a luz do poente extática semelha 
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia. 
E tamanha esperança e uma tão grande paz 
Avultam do clarão que cinge a serrania, 
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.


Manuel Bandeira 
De A cinza das Horas 


domingo, 7 de junho de 2015

VI




Junho é um grasnar solitário,
é uma gralha
que ao colo da araucária retorna.
As garras da ave, desprendidas do dia,
soltam as sementes
que meus olhos em silêncio recolhem.

Fernando Campanella
de "Efemérides"


O GUARDADOR DE REBANHOS




"Se às vezes digo que as flores sorriem
Se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque sou só essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
É a Natureza a despertar!"

Fernando Pessoa -
(Alberto Caeiro)
 in O Guardador de Rebanhos

sábado, 6 de junho de 2015

PASTORAL




Não há, não, 
duas folhas iguais em toda a criação.
Ou nervura a menos, ou célula a mais, 
não há de certeza, duas folhas iguais.
Limbo todas têm, 
que é próprio das folhas; 
pecíolo algumas; 
bainha nem todas. 
Umas são fendidas, 
crenadas, lobadas, 
inteiras, partidas, 
singelas, dobradas.
Outras acerosas, 
redondas, agudas, 
macias, viscosas, 
fibrosas, carnudas.
Nas formas presentes, 
nos actos distantes, 
mesmo semelhantes 
são sempre diferentes.
Umas vão e caem no charco cinzento, 
e lançam apelos nas ondas que fazem; 
outras vão e jazem 
sem mais movimento. 
Mas outras não jazem, 
nem caem, nem gritam, 
apenas volitam 
nas dobras do vento.
É dessas que eu sou.

António Gedeão ,
in Poesias Completas

quinta-feira, 4 de junho de 2015

PAUSA



Uma estrela, tão bela! É a margarida 
na cerca eflorescente, e os jardins, 
e o segredo do início, e a dor dos fins,
e a vida, e a vida, sobretudo a vida ...
E a vertigem do som, despenhadeiro
onde aladas manhãs mal se projetam 
e as vagas tardes espraiam-se e inquietam 
a alma, e vem de tudo um espinheiro 
e ao mesmo tempo a paz indefinível 
que cai sobre o silêncio do ser triste 
e o que acaso existe ou não existe 
como um ardor de brasa inconsumível, 
e a esperança mais alta e de tal sorte 
perseguida, e o sol cálido e a luz serena 
da noite, e a estranha paz que longe acena ...

Alphonsus de Guimaraens Filho

terça-feira, 2 de junho de 2015

HAICAI




O vento outonal
tece um tapete folhado
ao longo da rua.

Delores Pires,
em O Livro dos Haicais




AVE




ave
incrustada no espaço
ponto azul
isolada
(pedra
em parábola
no poema
espaço-tempo)
projeta
a fuga
no ângulo
de um voo
crê
demasiado em seu
escudo plumagem
ignora
quem seja
esboço apenas

Ricardo Augusto dos Anjos
De ‘Após a tragédia’

domingo, 31 de maio de 2015

SIMPLICIDADE



Queria, queria 
Ter a singeleza 
Das vidas sem alma 
E a lúcida calma 
Da matéria presa. 

Queria, queria 
Ser igual ao peixe 
Que livre nas águas 
Se mexe; 

Ser igual em som, 
Ser igual em graça 
Ao pássaro leve, 
Que esvoaça... 

Tudo isso eu queria! 
(Ser fraco é ser forte). 
Queria viver 
E depois morrer 
Sem nunca aprender 
A gostar da morte. 



Pedro Homem de Melo (1904-1984),
 in "Estrela Morta"

sexta-feira, 29 de maio de 2015

DEPOIS DO FIM




A minha vida ,agora, é tão outono
Como é a luz do sol quando se põe...
Ventura que se chama e não responde,
A dar a sensação de abandono...

Nas malhas dessa rede que é o sonho
Nos sonhos que são feitos de raízes.
Do tempo em que vivi dias felizes,
É só, quando não sinto este abandono...

.Não tenho fé em nada, nem em mim!
Nem é o medo do "depois do fim",
Que me faz faz continuar por estes trilhos...

.A força. porque vivo, mesmo assim,
Não é coragem ou pena de mim... 
É por ser mulher, mãe de meus filhos...
.

Nidia Horta,
em BAILANDO O CAMINHO...
ENCONTREI UMA ROSA..

quinta-feira, 28 de maio de 2015

NÃO ME DEIXES!



Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
'Ai, não me deixes, não!'

'Comigo fica ou leva-me contigo
Dos mares à amplidão;
Límpido ou turvo, te amarei constante;
Mas não me deixes, não!'

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
'Ai, não me deixes, não!'

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
'Ai, não me deixes, não!'

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
'Não me deixaste, não!'.”

Antônio Gonçalves Dias,
de "Nossos Clássicos"

segunda-feira, 25 de maio de 2015

PRIMEIRO PÁSSARO




Chega e canta.
Canta e escuta:
Para e escuta:
com os ouvidos, com os olhos, com as penas.

O silencio da manhã é um longo muro, ainda,
entre este mundo e o céu.

Escuta e canta.
Canta e para.
Para e parte.

Devia ser a primavera.
Mas não houve resposta.

Na solidão se perde o inquieto canto prematuro.
Perde-se no silencio o antecipado pássaro.
talvez triste.  



Cecília Meireles
In: Poemas Italianos 

sábado, 23 de maio de 2015

EM ALGUMA VIDA FUI AVE




Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.

Em alguma ave fui vida.

Mia Couto,
in  Lembrança Alada

ROSA




Vim pela escada de espinhos.
(Mais durável esse esforço que o esplendor.)

Depois de ascensão tão longa,
qualquer vento, qualquer chuva
converte-me em queda e pó.

Quando se vê a coroa
que eu trazia, já não sou.

Entre espinhos e derrotas,
qual é meu tempo de flor?


Cecília Meireles
Dispersos -1960-

sexta-feira, 22 de maio de 2015

CITAÇÃO




“E foi assim: 
Desde a hora que abriu os olhos, 
teve certeza: 
Hoje, seria um dia mágico”.
 
Caio Fernando Abreu (1948-1996)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

AMOR PERFEITO




Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
vê-se a luz do jardim suspensa.

Tão fina foi a vida sua,
tão fina é a morte em que descansa!
Mais transparente do que a lua,
mais do que as borboletas mansa!
Tanto o seu perfil atenua
que, em peso, é menos que a lembrança.

Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a sua vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.

Se o levantar entre meus dedos,
pólen de tardes e sorrisos
cairá com tímidos segredos
de tempos certos e imprecisos.
Ó cinco pétalas, ó enredos
de sentimentais paraísos!

Mas de leve gota pousada
no veludo, - mole diamante
que foi a resposta da amada,
que foi a pergunta do amante –
dela não se verá mais nada:
perdeu-se no vento inconstante.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

segunda-feira, 18 de maio de 2015

XII


Arte digital de Satoshi Matsuyama


Olhar a realidade face a face!
viver! (mas como se a gente sonhasse...)

Onestaldo de Pennafort,
in Poesia





domingo, 17 de maio de 2015

DEUS DANÇA





Seus curvos pés em movimento
eram luas crescentes de ouro
sobre nuvens correndo ao vento.

Como no jogos malabares,
ele atirava o seu tesouro
e apanhava-o com a mão nos ares...

Era o seu tesouro de estrelas,
de planetas, de mundos, de almas...
Ele atirava-o rindo pelas

Imensidões sem horizontes:
tinha todo o espaço nas palmas
e o zodíaco em torno a fronte.

Eu o vi dançando, ardente e mudo,
a dança cósmica do Encanto.
Unicamente abismo – tudo

quanto no seu cenário existe!
Que vale o que valia tanto?
Eu o vi dançando e fiquei triste...


Cecília Meireles
In: ‘Vaga Música’

sábado, 16 de maio de 2015

SORTE



Caem pétalas de som
do bem-te-vi meu vizinho:
bem-te-escuto, mal-te-vejo,
bem-te-quero passarinho.

Edival Perrini,
 IN O olho das águas/ 2009

FLOR AMARELA




Atrás daquela montanha
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.

Porém, se atrás daquela 
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.


Ivan Junqueira,
in  Poesia reunida

sexta-feira, 15 de maio de 2015

NINFÉIAS




Eu vou aonde as nuvens
de impossíveis tons se embriagam,
eu nado onde aquáticos leques
se irisam em sonhos
e por arte do encanto se dissolvem.

Eu furto cores,
clico roxos que se miram
em espelhos que me expandem.

Bebo a luz, traço a alma,
eu sou o impressionista ambulante.

Então nem me perguntes
por quais cambiantes geografias me espalho:
meus olhos são câmeras mimadas
meus pincéis são artífices do instante.

Fernando Campanella


quinta-feira, 14 de maio de 2015

OS RIOS




Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente,

Desejais regressar... Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança...
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade...

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)


quarta-feira, 13 de maio de 2015

CITAÇÃO




“Na natureza, a soberania pertence às forças silenciosas.
 A lua não faz o menor ruído e, não obstante, arrasta
 milhões de toneladas de água do mar no vaivém obediente
 ao seu comando; não ouvimos o sol se levantar, nem as
 estrelas se ocultarem. Assim, a aurora da nova vida
 surge silenciosamente no homem, sem que nada a anuncie
 ao mundo”.

Paul Brunton (1898-1981)


terça-feira, 12 de maio de 2015

2



 
Na noite transfigurada só ficaram os cedros e os
ciprestes.
A lua surgiu, mas como, na lembrança, um rosto
antigo explende palidamente e depois
se apagou.
O vento veio, mas como um pássaro branco de
grandes asas fatigadas: esvoaçou, lento
entre as frondes, pousou no chão e
adormeceu.
Os outros seres perderam-se no caminho dos
milênios.
Ficaram apenas os cedros e os ciprestes e, na altura,
as estrelas.
E para além dos ciprestes e cedros há só deserto e
esquecimento.
 
 
 
Tasso da Silveira
in Solilóquio.

sábado, 9 de maio de 2015

GAIVOTAS




Não sei onde as gaivotas fazem ninho,
onde encontram a paz.
Sou como elas,
em perpétuo voo.
Raso a vida
como elas rasam a água
em busca de alimento.
E amo, talvez como elas, o sossego,
o grande sossego marinho,
mas o meu destino é viver
faiscando na tempestade.


Vincenzo Cardarelli
(1887-1959)
Tradução: Albano Martins


sexta-feira, 8 de maio de 2015

OS PÁSSAROS NASCEM NA PONTA DAS ÁRVORES...


Fotografia Nelci Kaletka

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam
movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao
reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração


Ruy Belo,
in "Todos os Poemas"




terça-feira, 5 de maio de 2015

AO VENTO DE OUTONO




Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volta ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de um vez a casca
do fruto que não madura.


Joan Vinyoli
(1914-1984)
Tradução de João Cabral de Melo Neto.



domingo, 3 de maio de 2015

OS CARNEIRINHOS




Todos querem ser pastores,
Quando encontram, de manhã,
Os carneirinhos,
Enroladinhos
Como carretéis de lãs.

Todos querem ser pastores
E ter coroas de flores
E um cajadinho na mão
E tocar uma flautinha
E soprar numa palhinha
Qualquer canção.

Todos querem ser cantores
Quando a estrela da manhã
Brilha só, no céu sombrio,
Vão descendo os carneirinhos
Como carretéis de lãs...


Cecília Meireles,
in Ou isto ou aquilo.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

MOA COUTO



Olhei o poente e vi as aves carregando o sol,
empurrando o dia para outros aléns.

MIA COUTO
in "O último voo do flamingo" 

SE O TEMPO...





Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Albano Martins,
in Antologia Poética

terça-feira, 28 de abril de 2015

PAISAGEM DE APÓS-CHUVA


Arte de Graham Gercken


A relva, os cavalos, as reses, as folhas,
tudo envernizadinho como no dia inolvidável
da inauguração do paraíso...

Mario Quintana,
in Sapato Florido





A ESTRELA





Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


Manuel Bandeira,
in  Estrela da vida inteira


segunda-feira, 27 de abril de 2015

DA REALIDADE


Arte de Egidio Antonaccio 


Que renda fez a tarde no jardim,
Que há cedros que parecem de enxoval?
Como é difícil ver o natural
Quando a hora não quer!
Ah! Não digas que não ao que os teus olhos
Colham nos dias de irrealidade.
Tudo então é verdade,
Toda a rama parece
Um tecido que tece
A eternidade.

Miguel Torga
In: Antologia Poética

ÉRICO VERÍSSIMO


Arte Egidio Antonaccio


"Que bom se pudesse ficar no campo,
 à beira da estrada, encostar as faces na
 frescura do capim molhado, dormir, esquecer,
 ser apenas uma pedra no caminho,
 a folha duma árvore... "


Érico Veríssimo,
in Olhai os Lírios do Campo

sábado, 25 de abril de 2015

POEMA 16


Arte de Leonid Afremov


Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina.

Tece-a com desenhos
de amigos que falam,
de ruas que voam,
de amor que se inclina,

de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme, deplora
com palavras mudas
e não raciocina...

Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina

dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa 
e a noite combina.


Cecília Meireles
In Metal Rosicler






JARDIM INTERIOR


Arte de Thomas Kinkade


Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mário Quintana,
in A Cor do Invisível, 1989


quinta-feira, 23 de abril de 2015

NATUREZA HUMANA




Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir embora
E a tremenda vontade de ficar.


Vinícius de Moraes
In Jardim Noturno