quinta-feira, 31 de outubro de 2013

AS CIGARRAS




Amei-as em silencio, ao fim de cada estio,
Na terrível pureza de seu longo Canto.
E quando a tarde vem, sempre a vestir o manto,
Elas zombam do tempo austero e fugidio.

Enquanto nuvens passam sobre a paz do rio,
Ficam todas cantando, com firmeza e encanto,
Deixando em cada folha um pouco de seu pranto,
Pois de dores é feito o seu fatal cicio.

As formigas, obreiras, sem saber cantar,
Jamais, na dura lida, poderão perdoar
Aquelas que valor não dão às provisões.

E elas, as cigarras, servas da beleza,
Elevam madrigais, louvando a natureza
E dando resplendor a todos os verões.

Artur Eduardo Benevides
In: Elegia Setentã e Outros Poemas de Entardecer