segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

ANDORINHAS TÊNUES



Meu Deus, eu vago em andorinhas tênues,
Eu percorro os caminhos da loucura
E,é certo, um dia não regressarei.
É tudo louco. E denso.É louco.É louco.
Olhos que suspirais pelas partidas,
Mãos de anjos que o vento embalde trouxe,
Decepadas, sangrantes, torturadas.
Cantos que sobem de mim mesmo. Gritos.
Alguém que espera. E a luta. E esta certeza
De que somente ficará pulsando
Minha medonha lucidez, pulsando
E remordendo e alucinando, embalde!

Veio alguém de outros dias e me disse
Que eu estava a sonhar pelos caminhos.
Nem eu sabia, nem acreditei.
Quem sabe não estarei morto e sepulto
Naquele túmulo que ninguém conhece
E que me lembra o século XIV?
Ó mãos dos anjos, perfumai-me o rosto!
Cantai de manso, adormecei a bruma.
Voai ao mundo que diviso apenas.
Vêde a distância, o céu, o mar da infância.
Vêde que estendo as mãos e encontro o choro
E encontro a treva e a solidão. Sonhai!
Meu Deus, eu vago em andorinhas tênues
E é tudo longe e é tudo muito longe
E é tudo denso e louco. É tudo louco!

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nostalgia dos Anjos