quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ARCO-ÍRIS


Nuvens de chuva sustentam, plúmbeas,
o peso claro do céu nas costas,
roçando o ventre de medo e treva
na terra lúrida azulsedenta.

Vagas de pranto, suor ou cuspo,
lágrimas claras, bagas de espanto,
frígidas caem. Batem as bátegas
nas barbatanas do peixe aéreo.

Pássaro mágico, inalterável
águas espessas do céu rompendo,
és a baleia de outros profetas,
e no teu ventre me sinto bíblico.

Híbrido monstro, porém prolífico,
que nos espaços resfolgas grávido,
és a aliança do céu com a terra,
do azul com o verde, do Homem com o Mito.

Talvez por isso vem te seguindo
—filho bastardo da luz com as águas—,
íntimo e belo vem te seguindo,
com as mãos tocando-te, o arco-íris.

Mãos irisadas, benditas mãos.
Mãos luminosas que vão abrindo
vivas clareiras de sol na treva.
Mãos que Natura nos céus eleva.

Por essas lúcidas mãos guiado,
pássaro cego, peixe vendado,
ao porto aportas de um céu mais claro.
Por essas lúcidas mãos guiado,

pássaro-peixe-flor de metal,
teus olhos vítreos vêem a aurora,
teus olhos vítreos mordem a aurora,
bebem a aurora que flui no céu.

Sinuosos fios d’água costuram
a terra embaixo. No azul agora
pairas tranqüilo, porque te miram,
te esperam glebas aquabordadas.

Ao seu encontro, pássaro, desces,
(me sinto antigo, me sinto bíblico)
baleia, desces enfim e pousas,
no chão repousas — e nos vomitas.

Anderson Braga Horta
In Incomunicação (1977)