segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O APELO




Em tuas mãos roda o mundo: deixa-o rodar,
Senhor! deixa-o rodar nessa harmonia
que nos tortura e ao mesmo tempo comunica
febre e frio, uma febre de estrela, ah! deixa-o rodar!

Que ele se esbarronde, que se parta, que se esfacele,
deixa-o rodar!
Deixa-o rodar em nós, meu Deus, partículas atônitas
que só em nós mesmos ardemos, ardemos e nos consumimos,
e só em nós mesmos nos despenhamos,
e ninguém vê a nossa luz!

Mas o Universo é teu, soberba máquina que untas,
que lubrificas com um amor insaciável,
mas o Universo é teu e se somos cinza e vento,
se somos esta noite particular, inconfundível,
se somos esta solidão sem sonos contemplando
uns olhos que não se vêem e latejam nas trevas,
dá-nos,Deus, a vertigem: ah! deixa-nos rodar!
Deixa-nos rodar, rudes engonços, deixa-nos ir,
folhas que o vento atira nos desvãos
do tempo, ah! deixa-nos ir na roda eterna às vezes
áspera, denticulada,
deixa-nos dilacerar a grande e odiosa
face que nos contempla,
deixa-nos investir contra o silêncio absurdo
que é nosso e do Universo,
ah! deixa-nos fugir, partir, nunca voltar!

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo