quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

CISNE


Flutuo cisne em branquicento oceano.
Se um canto é necessário, este é meu canto.
Se forçoso é querer, apenas queira
insolitário naufragar no porto.

Memória de mim-mesmo e desses outros
que fui (que não serei) já me não punge,
e enxuto imerjo o branco olhar sem marcas
de terras nem de céus em pranto insosso.

Guardo apenas, do outrora, a face exígua
do futuro que nele se implantava.
Guardo silêncios de contidas barcas.

E da memória nos abismos graves,
peixes nadando em fosco mar inútil,
tentam voar as subterrâneas naves.



Anderson Braga Horta
In Incomunicação (1977)