sexta-feira, 3 de outubro de 2014

DESCRIÇÃO




HÁ UMA água clara que cai sôbre pedras escuras
e que, só pelo som, deixa ver como é fria.

Há uma noite por onde passam grandes estrêlas puras.
Há um pensamento esperando que se forme uma alegria.

Há um gesto acorrentado e uma voz sem coragem,
e um amor que não sabe onde é que anda o seu dia.

E a água cai, refletindo estrêlas, céu, folhagem...
Cai para sempre!

E duas mãos nela mergulham com tristeza,
deixando um esplendor sôbre a sua passagem.

(Porque existe um esplendor e uma inútil beleza
nessas mãos que desenham dentro da água sua viagem
para fóra da natureza,

onde não chegará nunca esta água imprecisa,
que nasce e deslisa, que nasce e deslisa...)


Cecília Meireles
in 'Viagem'