sábado, 4 de outubro de 2014

UNI-VERSO




“Treme a folha no galho mais alto” – escrevo.
Paro e sorvo, de olhos fechados, o cheiro bom
da terra, do capim chovido...
Parece que quer vir um poema...

Abro os olhos e fico olhando, interrogativamente,
a linha que escrevi no alto da página. Depois de 
longo instante, acrescento-lhe três pontinhos. 
Assim não ficará tão só enquanto aguarda as 
companheiras.

O vento fareja-me a face como um cachorro.
Eu farejo o poema. Ah, todo o mundo sabe que a
poesia está em toda parte, mas agora cabe toda 
ela na folha que treme.

Por que não caberia então em um único verso? 
Um uni-verso.

Treme a folha no galho mais alto.

(O resto é paisagem...)

Mário Quintana,
in caderno H