sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O JARDIM



O jardim é verde, encarnado e amarelo.
Nas alamedas de cimento,
movem-se os arabescos do sol
que a folhagem recorta
e o vento abana.

A luz revela orvalhos no fundo das flores,
nas asas tênues das borboletas,
- e ensina a cintilar a mais ignorada areia,
perdidas nas sombras,
submersa nos limos.

Ensina a cintilar também, 
os insetos mínimos,
- malada areia dos ares, que se eleva
até a ponta dos ciprestes vagarosos.

Pássaros que jorram das altas árvores
caem na relva como pedras frouxas.
As borboletas douradas e as brancas
palpitam com as asas de pétala,
entre água e flores.
E as cigarras agarradas aos troncos
ensaiam na sombra suas resinas sonoras.

Essa é a glória do jardim,
com roxos queixumes de rolas,
pios súbitos, gorjeios melancólicos,
vôos de silêncio,
música de chuva e de vento,
débil queda de folhas secas
murmúrio de gota d’água
na umidade verde dos tanques.

Quando um vulto humano se arrisca,
fogem pássaros e borboletas;
e a flor que se abre, e a folha morta,
esperam, igualmente transidas,
que nas areias do caminho
se perca o vestígio de sua passagem.

Caminhávamos devagar,
ao longo desses dias felizes,
pensando que a Inteligência
era uma sombra da Beleza.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas